Meu primeiro contato com Mário Quintana aconteceu quando eu era ainda menino. Ávido por leituras, sem ter como comprar livros, uma vez que na minha cidade não havia livrarias nem bibliotecas, eu colecionava os cadernos de sábado que vinham encartados no velho Correio do Povo, na época um jornal massudo em formato standard. O caderno de sábado era um encarte tabloide que trazia textos, crônicas e poesias de grandes literatos gaúchos.
As poesias de Carlos Nejar, os textos de Érico Veríssimo e o Caderno H de Mário Quintana, entre outros, eram a leitura que alimentava a minha vontade de escrever poesias. Como naquele tempo o jornaldo sábado só chegava na segunda-feira, meu pai ou os funcionários do posto de gasolina reservavam o caderno para mim. Mais tarde, fui estudar em Porto Alegre. Por pura coincidência, meu primeiro endereço era uma pensão na rua da Praia, muito próxima do Hotel Magestic, ao lado do "bar Leão". Foi lá que vi o poeta pela primeira vez.
Ele fumava sentado numa banqueta junto ao balcão do bar, enquanto lia e bebia uma taça de café. O poeta tinha mais de 70 anos e eu uns 18. Nunca falamos, porque sequer imaginava quebrar a concentração de um homem tão importante, mas juro que, sem ser notado, sentei algumas vezes numa banqueta ao seu lado. Mudei de endereço, aliás, tive vários endereços, fui morar em Casas de Estudante, compartilhei apartamentos com amigos.
Entrei na PUC, trabalhei no Diário de Notícias, na RBS e anos mais tarde fui trabalhar na Rádio Guaíba, que funcionava no prédio do Correio na esquina da Caldas Junior com a Rua da Praia. Voltei a encontrar o poeta das minhas leituras juvenis. Um dia subimos juntos o velho elevador gaiola. Tomei a iniciativa e o cumprimentei... O velho poeta apenas sorriu. Lembrei vagamente do poema "O tempo"... Quintana tinha mais de 80 anos.