Cidades Tenente Portela
Será que acaba em pizza? CPI é suspensa após pedido de afastamento da relatora
Após requerimento pedindo afastamento da relatora, presidente suspende os trabalhos da CPI por 10 dias.
24/11/2023 14h44
Por: Jonas Martins Fonte: Jornal Província
Affonso Sala, filho de prefeito de Tenente Portekla prestando depimento na Câmara de Vereadores

Existe muita incredulidade por parte da comunidade portelense de que as graves denúncias investigadas pela Comissão Parlamentar de Inquérito instalada na Câmara de Vereadores possam chegar a algum lugar. Mesmo com o objeto do fato absolutamente claro, ou seja, a prefeitura de Tenente Portela recorreu à compra do medicamento Ozempic, que não faz parte da lista do SUS, em benefício dos filhos do prefeito Rosemar Sala, uma série fatores atrapalham o melhor andamento das investigações.

O último capítulo ocorreu nesta semana, quando, após receber um ofício dos advogados do prefeito e da Secretária de Saúde, Lisete Bison, pedindo o afastamento da relatora Luiza Silva Barth, MDB, o presidente da comissão, vereador Jaíne Sales, PP, suspendeu os trabalhos por 10 dias, para que o assessor jurídico da Câmara, o advogado Fernando da Silva, analisa o pedido.

Desde a instalação, a CPI teve muitos atos que ficaram aquém dos ritos normais desse tipo de processo. A começar pelo próprio pedido de abertura ter passado por votação em plenário, quando tanto a Lei das CPIs quanto o regimento interno da própria Câmara prevê que ela precisa apenas da assinatura de um terço dos vereadores para ser instalada de pronto pelo presidente.

Depois teve a sua composição. Sem um regramento claro, a CPI de Tenente Portela é composta por sete vereadores, sendo seis indicados por bancadas e um indicado pela presidência da casa, algo no mínimo incomum para a composição de uma CPI. Não é normal que praticamente todos os parlamentares componham a comissão, bem como ainda mais incomum que a mesa diretora indique um representante.

Outro fator que chama a atenção é a manutenção do advogado Fernando da Silva como assessor jurídico da CPI. Ele é casado com a Secretária de Finanças do município, Jaqueline Balestrin e genro do vice-prefeito Leônidas Balestrin. Se isso não bastasse, ele mantém uma relação profissional com o prefeito, sendo também advogado no escritório de advocacia de Rosemar Sala. Sem qualquer garantia de imparcialidade, cabe a ele a confecção de pareceres e a orientação jurídica sobre funcionamento da comissão.

Na votação de requerimentos apareceram novas particularidades. A própria relatora da CPI e sua sogra foram arroladas como “testemunhas”. O motivo seria o fato da sogra da relatora também receber o medicamento Ozempic. O primeiro ato é absolutamente fora de qualquer razoabilidade, uma vez que o investigador não pode servir de testemunha e o segundo desprezou que a CPI apura um favorecimento ilícito concedido pelo prefeito aos seus filhos. Não há ilegalidade na prefeitura comprar o medicamento, há uma possível irregularidade em comprar para os filhos do prefeito, que, supostamente, não residem em Tenente Portela. No mais, a vereadora não é a ordenadora de despesas da prefeitura.

Entre tantos requerimentos aprovados, a própria CPI permitiu o quê chamou de ampla defesa, na qual concede a participação de advogados dos investigados, e que esses façam perguntas para testemunhas e intervenham no andamento da CPI, ou seja, eles passam a participar como se fossem integrantes da comissão. A decisão, também aleatória ao que acontece nas demais CPI espalhadas pelo Brasil, antecipa o direito a ampla defesa, uma vez que a CPI tem papel investigatório e não de julgamento ou de processo.O objeto final de uma CPI é um relatório onde serão apontados provas e indícios de uma possível ilegalidade, que após aprovado pelos vereadores será entregue ao Ministério Público, que pode ou não abrir um processo a partir do material que receber. Se entender que existem elementos que provam um possível crime, então, o MP instaura um processo, onde serão produzidas as provas e garantida ao “processado” o direito à ampla defesa.

Os próprios vereadores de oposição, principais interessados na CPI, comentem erros inocentes. Como o fato da relatora ter entregue um bilhete para uma testemunha, quando essa estava respondendo perguntas dos vereadores de situação, ou quando, sem protestar, os vereadores aceitaram que a própria relatora e a sua sogra fossem arroladas como testemunhas.

Para pedir o afastamento da relatora, uma das justificativas dos advogados é de que meios de comunicação tiveram acesso aos documentos. Cabe ressaltar que o vazamento de informações de uma CPI é algo corriqueiro. Sendo também papel da imprensa buscar essas informações extraoficiais, no entanto, o Sistema Província de Comunicação não teve acesso à sala dos documentos da CPI, nunca recebeu nenhum original dos documentos e até por isso jamais publicou documentos relacionado à coleta de provas da CPI.

Enfim, tudo é muito subjetivo e pouco objetivo. Clara até agora, é a intenção real da defesa do prefeito de atrasar ou acabar com a CPI antes de sua conclusão. Para quem jura que não cometeu nenhuma ilegalidade, o esforço para impedir a investigação acaba causando grande estranheza.

A CPI fica paralisada por 10 dias e deve retornar apenas na semana do dia 4 de dezembro, curiosamente última semana de trabalho da câmara de vereadores, já que a última sessão ocorre no dia 11 de dezembro. Para piorar, aquela última semana será mais curta, uma vez que dia 8 de dezembro é feriado em Tenente Portela. Diante de tantos acontecimentos, a pergunta que não quer calar é uma só: será que vai terminar em pizza?

Texto: Jonas Martins

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