Especiais Especial
Produtores de leite pedem socorro
Importação de leite do Mercosul está sufocando o produtor gaúcho
13/10/2023 10h35
Por: Jonas Martins Fonte: Jornal Província
A produção de leite do Rio Grande do Sul está fortemente impactada pelos baixos preços (Foto: Pixabay)

Produtores de leite do Rio Grande do Sul estão enfrentando uma situação de crise devido à desvalorização drástica do preço do leite e à concorrência desleal dos produtos vindos do Mercosul. Muitas famílias envolvidas na atividade leiteira já abandonaram a produção nos últimos anos devido à falta de rentabilidade, e essa crise tem gerado mobilizações em diversas partes do estado.
Os produtores estão se organizando em manifestações e protestos para chamar a atenção para a situação insustentável. Uma mobilização ocorreu na região de Frederico Westphalen, na BR-386, e agora os produtores de leite de Crissiumal se preparam para um grande protesto.
O manifesto está marcado para começar com uma concentração na Praça 25 de Julho, também conhecida como Praça da Matriz, às 9 horas da manhã. Todos os produtores de leite, comerciantes e outras classes interessadas em apoiar os produtores nesse momento difícil estão convidados a participar.
O objetivo principal do protesto é pressionar o Governo Federal para que ele reveja a política de exportações do Mercosul, visando a regularização dos preços no mercado interno. Além disso, os produtores estão buscando a estipulação de uma política de preços mínimos. No entanto, o Governo Federal já declarou que não pretende interferir no atual cenário, o que aumenta a preocupação dos produtores de leite.

Um problema muito maior 

Marcia Muller, uma das principais produtoras de leite de Tenente Portela, disse que a situação descrita tem prejudicado significativamente a atividade. Segundo ela, produtores que fizeram altos investimentos, melhorando a tecnologia na propriedade, têm aumentado o custo de produção. Como está ocorrendo esse descontrole com o mercado, a margem de lucro também diminuiu significativamente e está afetando diretamente o trabalho, de forma direta.
Segundo a EMATER o custo de produção de um litro de leite varia bastante de propriedade para propriedade, no entanto, a estimativa é que a produção a base de pasto com suplementação tenha variações de R$ 1,30 a R$ 1,60/litro.  Já no sistema confinado, a variação de custo de produção fica entre R$ 1,80 e R$ 2,30 por litro, de acordo com a realidade de cada propriedade.
De acordo com o CEPEA, o Estado do Rio Grande do Sul apresenta o menor valor médio pago ao produtor em relação a todo o Brasil. Em agosto, enquanto a média do preço pago no país estava em R$ 2,25, no Rio Grande do Sul o preço estava R$ 2,04. Esses valores caíram ainda mais a partir do mês de setembro. Muitos produtores nos relataram que estão recebendo abaixo de R$ 2.
Leonel Fonseca, presidente do Fórum do Leite da Farsul e membro do Conseleite, disse que, apesar de a questão do Mercosul ser o grande problema atual para a cadeia gaúcha de produção de leite, esse não é o único problema, uma vez que a situação é muito mais complexa.
Ele critica o modelo atual de mercado soberano, no qual o produtor não tem previsão nem participação direta na formação do preço, mas é o único que arca com as possíveis despesas que surgem no mercado produtivo.
De acordo com ele, já passou da hora de o produtor ter a valorização que merece dentro desse mercado soberano. Ele disse que as altas nos custos de produção são apenas absorvidas pela primeira etapa da cadeia e o produtor acaba sendo prejudicado.
A expectativa de uma tabela de preço mínimo, segundo
Leonel Fonseca, também não será suficiente para estabelecer condições satisfatórias para o produtor, uma vez que, em poucos anos, esse valor deixa de ser o mínimo para se tornar um preço único e isso não é bom para a cadeira produtiva.
Ele é taxativo em dizer que os produtores precisam se unir em busca de uma solução e de uma maior participação no mercado. A Farsul está negociando com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil – CNA para encontrar uma solução política para a questão do Mercosul, mas também para tentar melhorar as condições no mercado produtivo.
Uma das queixas existentes entre os produtores é a concorrência desleal. Leonel Fonseca fala sobre o fato de que os produtores argentinos, por exemplo, têm um custo de produção muito menor do que os brasileiros e, quando colocam a produção no mercado brasileiro, têm um lucro bastante significativo.
Ele diz que não se importa com a concorrência, desde que o governo brasileiro dê condições iguais para os produtores gaúchos. Ele cita que gostaria de adquirir insumos e tecnologia nos demais países do Mercosul, que tem um custo muito mais em conta, mas que não é permitido. Desta forma, com esse modelo de mercado, a concorrência se torna muito desleal e os produtores do Rio Grande do Sul estão completamente no prejuízo.

Produtores estão deixando a atividade

O cenário da cadeia produtiva de leite em Tenente Portela tem enfrentado várias crises que resultaram em um grande número de famílias abandonando a atividade. Em 2011, havia 520 famílias envolvidas na produção de leite, enquanto em 2022 esse número havia diminuído para 160. Isso representa uma redução significativa no número de produtores de leite na região.
Apesar da redução no número de produtores, a produção de leite destinada à comercialização em Tenente Portela ainda é considerável, com 11.754.747 litros de leite negociados diretamente com empresas de laticínios e queijarias em 2022.
A tendência para a atividade leiteira é a concentração da produção, com um menor número de produtores, mas com uma produção maior por propriedade e por animal. Isso implica em maior especialização e profissionalismo na atividade, mesmo que o número de produtores continue a diminuir, embora em um ritmo mais lento do que na última década.