Continuação da edição anterior.
O Problema maior se apresentou no terreno das canções. (...) Canção Folclórica, praticamente só uma conhecida: O Boi Barroso. Outra dificuldade era a escassez de poesias gauchescas. (...) Quem quiser declamar suas obras e as de Juca Ruivo ou Aureliano Figueiredo Pinto que fosse “pegando de orelhada”.
Quem não quer, manda, diz o ditado e, quem quer, faz. Tivemos que fazer...
Uma antologia corajosamente custeada por nosso próprio bolso: As mais belas poesias gauchescas. Primeira munição para a guerra dos declamadores, hoje um regimento inteiro de adultos, moças e piás... E como é que o aperto de mão típico do Gaúcho?
Apenas fazendo cruz com os antebraços, à moda da fronteira, ou também confirmando, à moda da Zona Sul? Isto teve que ser posto em votação, é venceu o “abracinho com confirmação” ... Imaginem isso... Até o aperto de mão foi feito votação para definir qual seria a “mais tradicional” para se perpetuar por aqui...É uma loucura, não?
“E como é que é o vestido das moças? Como modelo, aproximado, só havia vestidos caipiras, das festas juninas de São Paulo, ou as “folhinhas” anuais distribuídas pela Cia Alpargatas na Argentina. Paixão encasquetou que deviam ser vestidos compridos até os tornozelos; eu argumentei que se nós, rapazes, estávamos trajando nossas costumeiras bombachas, não carecia que as moças se voltassem para tão longe nos antigamente: isto não chegou a ser posto em votação, mas o bigodudo Paixão nos venceu pelo cansaço...
E, de lá pra cá, continuou o tradicionalismo evoluindo, como a confirmação que ninguém pretende ficar estagnado no passado. Por isso tantas e tão boas novidades tem aparecido, e continuarão aparecendo”.
A sabedoria e certeza com que o Lessa colocava as palavras chegava deixar a gente espantado... Quem nunca leu, precisa ler alguma obra e sentir a mesma sensação.
Logo adiante ele cita as tais criações que se seguiram, como os Piquetes de Laçadores, os Galpões Crioulos dentro das cidades, os Festivais de Música Nativista como a Califórnia da Canção em Uruguaiana, as Payadas de Jayme Caetano Braun, o concurso de 1ª Prenda (ou Miss Tradicionalista, como ele cita) ...
Para encerrar, deixamos a conclusão por conta do próprio autor, que cita Eric Hobsbawn e Terence Ranger, e o livro “A invenção das Tradições”.
“Hobsbawn que já alcançara notoriedade com seus ensaios sobra a era das revoluções e a era do capital, aqui analisa a função social das tradições, sem as quais, pelo jeito, a humanidade não consegue viver. Quando a tradição não existe completamente formalizada, completa-se o que está faltando para fortalecer o alicerce nacionalista. “E parece claro que os exemplos mais bem sucedidos de manipulação são aqueles que exploram práticas oriundas de uma necessidade sentida, não necessariamente compreendida de todo por determinado grupo”. (P.215 tradução brasileira, Paz e Terra).
Bueno amigos, o texto se alongou um pouco, mas espero que tenha sido interessante e que gere diversas dúvidas e questionamentos.
Fonte: Barbosa Lessa, Paixão Côrtes – História RS.
Até a próxima.