Era o final dos anos 1960 e, indiscutivelmente, o rádio era o mais eficiente meio de comunicação, especialmente nas regiões do interior.
A televisão ainda engatinhava. Era privilégio raro, restrito sobretudo às cidades maiores e, mesmo nelas, dependia de um sinal que nem sempre chegava com qualidade.
O jornal, embora já fosse um meio centenário, também sofria com as distâncias. Na nossa cidade, os exemplares chegavam pelo correio ou por algum transporte que viesse dos centros maiores. Quando chegavam cedo, já traziam notícias de um ou dois dias antes.
O rádio era diferente.
O rádio chegava na hora.
Estava nas cozinhas, nas salas e nos balcões do comércio.
Nas famílias mais pobres, possuir um rádio a pilha começava aos poucos a se transformar numa pequena conquista.
Na nossa região havia poucas emissoras.
Três ou quatro, no máximo, disputavam a atenção dos ouvintes.
A mais próxima era a Rádio Difusora de Três Passos, distante cerca de trinta quilômetros. Em ocasiões especiais, utilizando as precárias linhas telefônicas daqueles tempos, fazia transmissões de nossa cidade.
A Rádio Progresso de Ijuí tinha talvez a maior influência regional, mas atendia a uma área tão extensa que dificilmente conseguia dedicar atenção permanente às pequenas comunidades.
Foi nesse cenário que apareceu um sonhador.
Pastor Norberto Showantz.
Homem de ideias incomuns para a época.
Às vezes tão adiante do seu tempo que nem todos conseguiam acompanhá-lo.
Norberto estava envolvido com um problema que começava a ficar evidente na região: as famílias rurais cresciam, mas a terra permanecia a mesma. A cada geração, pequenas propriedades eram divididas entre os filhos e as possibilidades de sobrevivência diminuíam.
Era preciso buscar novos horizontes.
Primeiro veio a tentativa de colonização na região de Altamira, no Pará, às margens da imensa Transamazônica, aquela rodovia apresentada pelo governo militar como uma das grandes obras de integração nacional.
Dezenas de famílias da região seguiram para lá.
Mas a distância era enorme.
As comunicações, quase inexistentes.
Para quem ficava, parecia que aqueles conhecidos tinham desaparecido no mapa.
A experiência acabou perdendo força.
Norberto procurou outro caminho.
E encontrou o Centro-Oeste.
O Mato Grosso surgia como uma nova fronteira.
Desta vez o movimento ganhou dimensão muito maior. Centenas de famílias deixaram nossa região e seguiram para aquelas terras ainda pouco povoadas.
Daqui partiram homens e mulheres que ajudariam a formar comunidades como Canarana, Água Boa, Barra do Garças e outros núcleos que, décadas mais tarde, fariam parte de uma das maiores fronteiras agrícolas do Brasil.
Mas havia um problema.
Como mobilizar tanta gente?
Como informar?
Como explicar os projetos?
Como manter contato com as famílias?
Norberto tinha a resposta:
uma emissora de rádio.
Com o apoio da Igreja de Confissão Luterana, de instituições internacionais e de contatos que mantinha em Brasília e na Europa, começou a buscar recursos.
Parte do dinheiro veio para a construção do prédio.
Outra parte, para os equipamentos.
E em Brasília estava talvez a etapa mais difícil:
a concessão do canal.
Mas Norberto tinha aquela capacidade rara de transformar ideia em projeto e projeto em obra.
Em cerca de dois anos, aquilo que parecia sonho começou a tomar forma.
E virou realidade.
A emissora foi inaugurada em 1970, justamente no ano em que o Brasil parou diante do rádio e da televisão para acompanhar a Copa do Mundo.
Entrou no ar em setembro, junto com a chegada da primavera.
E já nasceu com um slogan que dizia muito sobre o projeto:
“Não somos melhores nem piores do que ninguém. Apenas diferentes.”
E era realmente diferente.
Antes mesmo da inauguração, Norberto tomou uma decisão que dizia tudo sobre o que imaginava para aquela rádio.
A primeira equipe, formada em boa parte por profissionais vindos de emissoras maiores, passou cerca de trinta dias vivendo em casas de agricultores do interior.
Em sistema de rodízio.
A ideia era simples:
antes de falar para aquela população, era preciso conhecê-la.
Era preciso saber como vivia.
O que plantava.
Do que precisava.
Quais eram seus problemas.
Além dos departamentos tradicionais — jornalismo, esporte, comercial —, a emissora possuía um departamento agropecuário, encarregado de produzir programas especialmente destinados aos agricultores.
Era uma rádio pensada para a realidade da região.
E o sucesso foi imediato.
Um dos primeiros grandes comunicadores foi Eloni Luiz Lavarda, vindo da Capital.
Rapidamente tornou-se personagem conhecido na cidade.
Sua atuação não se limitava ao microfone. Participou da vida comunitária e teve influência em algumas iniciativas importantes, entre elas a organização da associação comercial e industrial, num tempo em que o comércio local ainda buscava uma estrutura mais definida.
A programação também conquistou os ouvintes.
Na velha máxima atribuída a Abelardo Barbosa, o Chacrinha — de que na comunicação nada se cria, tudo se copia — surgiram programas populares que rapidamente ganharam a região:
“Não Diga Não Nem Né”,
“Manhãs de Sucesso”,
“Festival de Violeiros”,
entre outros.
Mas a emissora não vivia apenas de entretenimento.
Havia programas apresentados por técnicos agrícolas.
Informações de saúde.
Espaços culturais.
E até uma noite destinada à música clássica.
Essa era a Rádio Municipal.
Mas talvez nenhum programa sintetize melhor sua importância do que aquilo que acontecia diante da própria emissora.
Foi dali que muitas famílias começaram a viagem rumo ao desconhecido.
Primeiro para o Norte.
Depois, em número muito maior, para o Centro-Oeste.
Ainda consigo imaginar aquelas noites.
Caminhões carregados com mudanças.
Móveis.
Ferramentas.
Colchões.
Utensílios.
Tudo aquilo que uma família julgava necessário para começar outra vida a milhares de quilômetros de casa.
Depois vinham os ônibus.
Os inesquecíveis “camelinhos” da Marcopolo, da empresa Ouro e Prata.
Ali embarcavam os colonizadores.
Homens.
Mulheres.
Crianças.
Famílias inteiras.
Na praça, os parentes permaneciam.
Havia abraços demorados.
Choro.
Recomendações.
Promessas de voltar.
Discursos.
E a Rádio Municipal transmitindo tudo.
Naquele momento, ela não era apenas uma emissora.
Era testemunha da despedida.
Quando finalmente os motores roncavam e os ônibus começavam a se movimentar, o sistema de alto-falantes instalado em frente à rádio e na praça — que mais tarde receberia o nome de Praça do Imigrante — aumentava o volume.
E uma música de Carmen Silva tomava conta do lugar.
Falava do emigrante que deixava sua terra, da saudade, da distância e do desejo de um dia voltar.
Não era preciso explicar nada.
A música dizia por todos.
Os ônibus desapareciam pela estrada.
E ficavam os que haviam partido...
e os que choravam porque tinham ficado.
Algum tempo depois da inauguração da rádio, Norberto concluiu que ainda faltava alguma coisa.
Um jornal.
Novamente buscou profissionais experientes.
Chegou a trazer para a cidade gente de grande qualificação, entre eles o fotógrafo J. B. Scalco, profissional premiado e reconhecido.
Rádio e jornal começavam a formar um projeto de comunicação que, para uma pequena cidade do interior daqueles tempos, era extraordinariamente ambicioso.
Mas a própria história de Norberto acabou seguindo o mesmo caminho das famílias que ele ajudara a partir.
Com o sucesso dos projetos de colonização, mudou-se para o Centro-Oeste.
Participou diretamente do desenvolvimento daquela nova região.
Entrou na política.
Foi eleito deputado federal constituinte.
E sua trajetória acabaria ligada também à elaboração da Constituição de 1988.
Sua ausência, entretanto, mudou a rádio.
Sem o homem que havia concebido aquele projeto, a Rádio Municipal começou lentamente a adquirir as cores da política local.
Vieram novos administradores.
Depois outros.
E outros.
Muitos deles nomeados de acordo com as mudanças no comando da Prefeitura.
Aos poucos, aquela emissora criada com uma missão muito particular — comunicar, educar, orientar e ajudar a abrir novas fronteiras para famílias da região — foi se transformando numa rádio cada vez mais parecida com tantas outras.
Mais local.
Mais dependente das administrações municipais.
E, inevitavelmente, mais próxima das disputas políticas da pequena cidade.
Talvez fosse impossível que permanecesse para sempre igual ao projeto original.
Instituições também envelhecem.
Mudam.
Adaptam-se.
Perdem algumas características.
Ganham outras.
Mas quem viveu aqueles primeiros tempos sabe que a Rádio Municipal foi muito mais do que uma emissora instalada numa pequena cidade do interior.
Durante alguns anos, seus microfones acompanharam uma verdadeira migração.
Enquanto centenas de famílias partiam em direção a um mundo desconhecido, a rádio ficava.
Registrando.
Noticiando.
Despedindo.
E contando a história.
Uma história que, naquele tempo, estava sendo escrita ao vivo.