Em cidades pequenas, algumas atividades de trabalho nem sempre exigiam aquela dedicação intensa e ininterrupta dos grandes centros. Entre uma tarefa e outra, sobrava algum tempo para uma conversa, um chimarrão e, não raras vezes, para um carteado.
E o que começava como passatempo durante o dia acabava muitas vezes se transformando em compromisso noturno.
Depois do expediente, juntava-se a turma.
E o jogo seguia.
Às vezes noite adentro.
Naqueles tempos, o que se jogava muito era pontinho ou canastra.
Celito era um desses apaixonados pelo carteado.
Homem muito ligado ao esporte, era também dirigente dedicado do Miraguay e daqueles que levavam a sério tanto uma partida de futebol quanto uma disputa de cartas.
Numa dessas noites no clube, porém, a sorte parecia ter abandonado nosso amigo.
Perdia uma.
Perdia outra.
E, pior do que perder, ainda precisava aguentar a gabolice dos adversários.
Porque em mesa de carteado perder dinheiro já incomoda.
Mas perder e ainda ouvir desaforo é muito pior.
Depois de algumas horas apanhando, Celito decidiu que precisava tomar uma providência para recuperar pelo menos a fama de bom jogador.
No meio de uma partida, levantou-se:
— Vou ali no banheiro. É rapidinho.
Recolheu cuidadosamente as cartas que tinha na mão e colocou-as no bolso.
Afinal, deixar as cartas sobre a mesa, cercadas daquela turma de amigos, seria uma imprudência.
Foi até o water closet.
E voltou realmente rápido.
Sentou-se novamente.
Na primeira rodada, nada.
Na segunda, também não.
Jogava sério, concentrado, como se estivesse estudando cuidadosamente cada movimento.
Até que, na terceira, abriu um sorriso.
Dobrou as cartas que tinha na mão sobre a mesa e anunciou, triunfante:
— Esta é minha! Até que enfim!
Por alguns segundos, ninguém falou nada.
Celito saboreou a vitória.
Finalmente havia recuperado a honra.
Foi então que um dos companheiros, olhando atentamente para as cartas sobre a mesa, resolveu estragar a festa:
— Ô, Celito...
Ele olhou.
— Só me explica uma coisa...
Silêncio.
— Por que as costas das tuas cartas são vermelhas, se o baralho que nós estamos jogando é azul?
A vitória durou pouco.
Mas a história, pelo jeito, durou muito mais.