Minha mãe era considerada uma das senhoras mais devotas da cidade.
Bonita quando jovem, casou-se e teve seis filhos. E todos nós, praticamente desde o berço, éramos preparados para fazer a Primeira Comunhão por volta dos cinco anos de idade.
Hoje parece inimaginável.
Assim foi com meus irmãos.
Assim foi comigo.
Um dos grandes orgulhos daquele ingresso oficial no mundo do catolicismo era o “troféu” que passava a ocupar lugar de destaque na sala de casa: a fotografia do menino da Primeira Comunhão.
Mãos postas.
Um rosário cuidadosamente colocado entre os dedos.
Roupa impecável.
E aquele olhar vago, piedoso, lançado para algum ponto do infinito.
Mamãe não economizava na moldura.
Eram sempre bonitas, seguindo mais ou menos o mesmo padrão, escolhidas entre as melhores que Dona Sylvia conseguia fornecer.
Na parede da nossa casa, aquelas fotografias formavam quase uma pequena galeria de santos domésticos.
Mas a fé não se resumia à fotografia.
Havia missa.
Catecismo.
Preparação para a Crisma.
Orações.
E, naturalmente, o Santo Anjo rezado de joelhos ao lado da cama antes de dormir.
Tudo obrigatório.
Paralelamente havia a escola. Mas a escola, apesar de funcionar no colégio das irmãs, já representava o começo de um caminho um pouco mais profano: o caminho do conhecimento.
Foi então que, certo dia, meu irmão mais velho, Jairo — que, para dizer a verdade, era provavelmente o mais devoto de todos nós — apareceu com uma decisão:
queria ser padre.
Minha mãe recebeu a notícia com natural orgulho e levou o assunto ao Padre Albino.
O desejo acabou chegando aos ouvidos de um daqueles religiosos que percorriam as cidades procurando novas vocações.
Lembro bem do dia em que ele apareceu em nossa casa.
Batina preta.
Conversa fácil.
Simpático.
Falava sobre o seminário, os estudos, a religião e aquela vida nova que poderia esperar meu irmão.
Pelo que percebi, Jairo já estava praticamente com a vaga garantida.
Foi quando alguma coisa despertou em mim.
Talvez fé.
Talvez competição entre irmãos.
Ou talvez, sendo mais sincero depois de tantos anos, aquela tenha sido simplesmente a primeira oportunidade que apareceu para eu conhecer um mundo além do catecismo, da Rua Uruguai e dos limites da nossa pequena cidade.
Não pensei muito.
Interrompi a conversa:
— Eu também quero ser padre!
O homem de batina me olhou.
Primeiro sério.
Depois procurou uma saída diplomática:
— Você ainda é muito novo, menino.
E era.
Tinha apenas oito anos.
Oito anos e, entre outras proezas, já havia quase me perdido no Rio de Janeiro numa viagem de caminhão que fizera com meu pai.
Minha mãe me olhava orgulhosa diante daquela inesperada demonstração de fé.
O padre, por sua vez, examinava meu tamanho, queria saber da escola, da idade e provavelmente tentava descobrir se aquilo era vocação ou apenas entusiasmo de criança.
Insisti.
Insisti tanto que fui submetido ali mesmo a uma espécie de pequena sabatina religiosa.
Vieram perguntas sobre santos.
Sobre a vida de Cristo.
Orações.
Catecismo.
E me saí muito bem.
Aquela preparação doméstica começava a mostrar resultados.
Alguns dias depois, minha mãe me chamou.
Tinha novidades.
Como Jairo era mais velho e já havia sido aceito, poderia cuidar de mim no seminário.
Eu também poderia ir.
O destino era Carazinho, cerca de duzentos quilômetros distante de nossa casa.
Para uma criança daqueles tempos, era quase outro país.
O seminário funcionava num antigo patronato e estava ligado à Congregação dos Servos da Caridade, fundada pelo italiano Luigi Guanella.
No início do ano seguinte, pasmem, com apenas nove anos de idade — faço aniversário em 15 de janeiro —, arrumei minha primeira mala e fui para o seminário.
Era o mais jovem entre os alunos.
E também um dos menores.
Chamava atenção por isso.
Havia outros guris próximos da minha idade, como João Vani, Ari Pio e um menino de Victor Graeff de quem, infelizmente, já não recordo o nome.
O ritmo era intenso.
A idade não concedia muitos privilégios.
Éramos tratados praticamente como iguais.
Havia horário para levantar.
Horário para rezar.
Horário para estudar.
Horário para trabalhar.
Horário para comer.
Horário para dormir.
Só numa coisa o tamanho fazia diferença: nas filas.
Para entrar no refeitório, ir à missa ou organizar a turma, eu acabava invariavelmente ocupando os últimos lugares.
Minha baixa estatura me garantia essa distinção.
As tarefas dos menores, naturalmente, não eram tão pesadas quanto as dos maiores.
Eu era escalado para limpar a capela, espanar a imagem de Santo Antônio e fazer outros pequenos serviços.
Mas havia também a lavoura.
Sim.
Seminário também tinha lavoura.
E lá íamos nós.
No meio do trigo, eu geralmente entrava para o grupo dos guris encarregados de arrancar rabanetes e realizar os trabalhos compatíveis com nosso tamanho.
Eu era um guri falante.
Talvez por isso, ou simplesmente porque era pequeno e despertava curiosidade, comecei a ser escolhido para aparecer nas solenidades.
Meu número principal era uma poesia que a irmã Diomira, antes mesmo de eu viajar, havia me feito decorar na marra.
Chamava-se, se a memória não me trai:
“Quisera ser padre”.
Lembro ainda do começo:
— Quisera ser padre para rezar missa e pregar...
Aquela poesia abriu caminho para outras.
Eu já conhecia alguns versos desde os tempos da alfabetização, principalmente Casimiro de Abreu, e logo passei a ser uma espécie de declamador oficial dos pequenos.
Até que veio o grande desafio.
Numa ocasião festiva, o seminário receberia a visita de um superior da Congregação, vindo da Itália.
Faltavam apenas dois dias quando o diretor resolveu que seria muito bonito colocar justamente o menor seminarista para receber o visitante com uma poesia.
Em italiano.
E enorme.
Levaram-me até uma sala da direção que eu praticamente desconhecia, usada para receber benfeitores, colaboradores e visitas importantes.
Ali começou o suplício.
Ainda lembro de algumas palavras, provavelmente deformadas por mais de meio século de memória:
— Che cosa posso dire, piccinino come sono... Non sapio parlare...
Ou alguma coisa parecida.
O fato é que eu estava apavorado.
Italiano já era difícil.
Italiano decorado em dois dias, diante de um religioso vindo da Itália, era ainda pior.
O padre percebeu.
Eu estava tenso.
Nervoso.
Talvez branco.
Então resolveu aplicar uma terapia que certamente hoje não constaria de nenhum manual pedagógico para crianças de nove anos.
Pegou um copo.
Colocou vinho.
E me deu para beber.
Aí estragou tudo...
Não sei se recitei melhor.
Mas aquela parte da história eu nunca esqueci.
Ao todo foram três anos de internato.
Um em Carazinho e outros dois em Canela.
Em Canela, o colégio era maior, novo e ficava na entrada da cidade, na estrada que liga Canela a Gramado. Hoje, pelo que me parece, aquela paisagem mudou completamente.
O tempo foi passando.
E alguma coisa dentro de mim também começou a mudar.
A distância de casa.
A idade.
A solidão de certos momentos.
E principalmente alguns questionamentos sobre a própria fé, que eu não revelava a ninguém.
Comecei a pensar em sair.
Mas havia um problema.
Eu saíra de casa muito cedo.
Não tinha criado uma convivência profunda com os guris da minha cidade. Meus amigos, meu cotidiano e boa parte do meu pequeno universo estavam dentro daquele internato.
Sair dali também significava começar outra vez.
Hoje é difícil compreender aquela realidade.
Mais difícil ainda imaginar que eu permitiria que um filho meu, aos nove anos, tivesse a mesma experiência.
Saíamos de casa no final de janeiro.
As férias de inverno resumiam-se a duas semanas em julho.
E só voltávamos definitivamente para casa em meados de dezembro.
Para um menino, era quase um ano inteiro.
Naquele enorme dormitório coletivo, comecei a passar noites pensando numa saída.
Como terminar aquela aventura?
A solução veio de onde eu menos esperava.
Um dia, meu irmão Jairo decidiu abandonar o projeto de seguir o sacerdócio.
Até hoje não sei exatamente o motivo.
Pouco depois fui chamado à direção.
Disseram que, sem meu irmão ali, eu era muito jovem para continuar.
Curioso.
Depois de três anos, finalmente haviam descoberto que eu era muito novo.
Resolveram que eu deveria voltar para casa.
Mandaram uma longa carta à família, que ficou aos cuidados de meu irmão. Nunca soube direito quanto daquela explicação se referia a mim e quanto se referia a ele.
Mas houve uma frase que me serviu de consolo.
O Padre Franco foi bastante direto:
— Vai viver o mundo. Você não tem vocação para ser padre.
Obedeci.
E fui viver o mundo.
Foram apenas três anos de internato.
Três anos.
Mas, vistos pela distância de uma vida inteira, parecem muito maiores.
Durante muito tempo talvez eu tenha tentado deixá-los num canto da memória. Como se fossem apenas uma passagem da infância que não merecesse ser revisitada.
Hoje penso diferente.
Aquele menino de nove anos, que saiu de casa com uma mala para ser padre, não voltou igual.
Aprendeu a conviver.
Aprendeu disciplina.
Conheceu a distância.
Sentiu saudade.
Descobriu livros, poesias, lugares e pessoas.
E talvez tenha começado ali também a aprender uma coisa muito mais complicada:
questionar.
Não virei padre.
O padre estava certo.
Fui viver o mundo.
Mas aqueles três anos de seminário viajaram comigo por todos os outros.