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O dia em que me perdi no Rio de Janeiro
Aventuras de uma infancia sem limites
01/09/2026 10h01
Por: Jalmo Fornari

Tudo era diferente, estranho e maravilhoso.

O menino havia sido deixado, cercado de recomendações de todo tipo, dentro da cabine do velho FNM Brasinca. Enquanto esperava, ia de um lado para outro no banco, esticava o pescoço pelas janelas e tentava acompanhar aquele mundo que se movimentava do lado de fora.

Era um fervilhar de gente.

Carros passando, caminhões chegando e partindo, homens carregando mercadorias, pessoas entrando e saindo das casas comerciais. Até as roupas pareciam diferentes.

Tudo era novo.

Tudo era interessante aos olhos daquele menino de sete anos, vindo de uma pequena cidade do interior do interior do Rio Grande do Sul e que, naquele longínquo ano de 1964, conhecia pela primeira vez o Rio de Janeiro.

Meu pai havia saído para tratar do frete em um dos bairros comerciais da periferia da cidade e, antes de fechar a porta do caminhão, tratou de repetir as recomendações.

Não mexer em nada.

Principalmente nas alavancas.

Nem na marcha, nem no freio de mão.

Muito menos nos pedais.

E havia ainda outra recomendação:

— Não abre a porta!

Esta última eu estava prestes a esquecer.

O tempo passava e, para uma criança de sete anos, esperar dentro da cabine de um caminhão parecia demorar uma eternidade. Do lado de fora havia um mundo inteiro para descobrir.

Foi quando alguma coisa numa vitrine chamou minha atenção.

Não lembro mais o que era.

Talvez um brinquedo. Talvez algum objeto que nunca tivesse visto. Talvez simplesmente aquelas coisas maravilhosas que somente os olhos de uma criança conseguem transformar em espetáculo.

Olhei para um lado.

Olhei para o outro.

Meu pai não aparecia.

Resolvi desobedecer.

Seria apenas uma voltinha.

Desci do caminhão encantado com aquele mundo e fui até a vitrine.

Quando ouvi o barulho da porta do FNM batendo atrás de mim, talvez nem tenha dado importância.

A curiosidade era maior.

Fiquei ali olhando.

Depois de satisfeito aquele primeiro impulso de aventura, resolvi voltar.

Foi então que surgiu o problema.

A porta havia trancado.

Mas nem isso seria tão grave.

O pior era que eu era pequeno demais.

Por mais que tentasse, não conseguia subir no estribo e alcançar a maçaneta externa da porta.

Tentei uma vez.

Duas.

Três.

Pulei.

Estiquei o braço.

Nada.

As pessoas passavam apressadas e ninguém prestava atenção naquele gurizinho tentando entrar num enorme caminhão estacionado à beira da rua.

Então tomei aquela que, na cabeça de uma criança, parecia ser a decisão mais lógica possível:

iria procurar meu pai.

Hoje penso nisso e parece uma loucura.

Naquele momento, parecia perfeitamente razoável.

Comecei a andar.

Não sei dizer quanto caminhei. Também não sei se dobrei uma esquina, duas ou mais. Lembro apenas daquela multidão de rostos desconhecidos.

De vez em quando, virava para trás.

O caminhão ainda estava lá.

Mais adiante, olhei novamente.

Parecia menor.

Continuei andando.

Olhava para cada homem que passava imaginando encontrar meu pai.

Nada.

Mais alguns passos.

Olhei para trás outra vez.

E o caminhão havia desaparecido.

Foi naquele instante que a aventura terminou.

E começou o medo.

Eu estava perdido.

Perdido no Rio de Janeiro.

Uma criança de sete anos, vinda de uma cidadezinha do interior gaúcho, caminhando sozinha por uma das maiores cidades do Brasil.

Comecei a chorar.

E quando já não sabia mais para onde ir, recorri àquilo que toda criança daquele tempo aprendia cedo.

Comecei a rezar.

Baixinho, entre lágrimas, caminhava repetindo:

— Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador...

E seguia.

— ...se a ti me confiou a piedade divina...

Não sei quantas vezes repeti a oração.

Talvez muitas.

Até que aconteceu aquilo que meu tio chamaria, durante o resto da vida, de milagre.

Um homem que vinha pela rua olhou para mim.

Parou.

Olhou novamente.

E gritou, incrédulo:

Não pode ser! É o Nego?!

Era o tio Sadi.

Meu tio.

Motorista de caminhão como meu pai, ele também estava no Rio de Janeiro e havia decidido passar em um mercado que nem sequer fazia parte de seu trajeto habitual.

Quando me reconheceu, ainda custou a acreditar.

— O que tu faz aqui, guri?!

Não precisei explicar muita coisa.

Agarrei-me a ele e comecei a chorar.

Entre soluços, tentava justificar:

— A porta trancou...

Era, na minha cabeça, uma explicação perfeitamente aceitável para estar perdido no meio do Rio de Janeiro.

Tio Sadi me levou de volta ao caminhão.

No caminho, recebi todas as lições de moral que um menino desobediente poderia receber.

Falou do perigo.

Disse que eu jamais poderia ter saído dali.

Explicou que meu pai voltaria e não me encontraria.

E repetia:

— Guri, tu sabe o que tu fez?

Meu pai ainda estava no escritório, tratando do frete. Nem imaginava que, naquele intervalo, seu filho de sete anos havia conhecido sozinho um pequeno pedaço do Rio de Janeiro.

Durante muitos anos, o tio Sadi contou aquela história.

E sempre terminava praticamente da mesma maneira:

Foi Deus que me fez ir naquele mercado. Se eu não tivesse mudado o caminho, nunca mais nós iríamos encontrar o Nego.

Talvez fosse exagero de contador de histórias.

Talvez não.

O fato é que, mais de seis décadas depois, ainda consigo imaginar aquela cena.

O velho FNM parado numa rua distante.

A multidão passando.

Um menino pequeno caminhando entre desconhecidos, procurando o pai e repetindo, em meio às lágrimas, a oração do anjo da guarda.

Às vezes também penso no que poderia ter acontecido caso tio Sadi tivesse seguido seu caminho habitual naquele dia.

Não gosto de pensar por muito tempo.

Prefiro ficar com a explicação dele.

Naquele dia, em algum lugar do Rio de Janeiro de 1964, o Santo Anjo do Senhor talvez tenha ouvido a oração de um gurizinho perdido e resolvido mandar um motorista de caminhão mudar de caminho.