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A morte na avenida
O tiro que salvou o médico
28/08/2026 12h03
Por: Jalmo Fornari

A rua ainda nem tinha nome.

Mais tarde seria chamada de Avenida Santa Rosa, mas, naquele tempo, era apenas uma via de terra da pequena vila que começava a crescer. Talvez por estar numa espécie de coração daquele povoado, já concentrava em suas imediações alguns dos principais estabelecimentos: o moinho, a casa de comércio, o hotel e, naturalmente, o hospital.

Hospital é maneira generosa de dizer.

Era uma construção de madeira, talvez com pouco mais de duzentos metros quadrados, onde funcionavam um consultório, uma enfermaria e alguns pequenos quartos destinados aos doentes que precisavam permanecer sob cuidados. Chamava atenção o telhado coberto de taboinhas de madeira encaixadas umas sobre as outras, numa época em que as telhas de barro ainda começavam a se tornar mais comuns por estas bandas.

Era tudo muito simples.

Não havia exames sofisticados, aparelhos ou plantões médicos permanentes. Médico mesmo só aparecia quando algum profissional percorria a região e passava pela vila para atender quem estivesse esperando.

Um deles era o Dr. Ferlauto.

Dedicado à profissão, percorria uma região enorme a bordo de um Ford modelo 1929. Estradas ruins, barro, poeira, pontes improvisadas e distâncias que hoje parecem pequenas, mas que naquele tempo podiam representar horas de viagem.

Quando chegava, o pequeno consultório ganhava movimento.

Vinham crianças com febre, agricultores com dores antigas, mulheres trazendo os filhos pela mão, idosos carregando enfermidades que, muitas vezes, sequer tinham nome conhecido por aquelas famílias.

O médico examinava, fazia o diagnóstico possível, dava recomendações e escrevia suas receitas.

Era, dentro das limitações daquele tempo, o ritual de tentar salvar vidas.

No início de 1949, entre os pacientes do Dr. Ferlauto estava um menino, filho único de uma família de agricultores.

A criança estava com febre.

O médico examinou, receitou medicamentos e orientou a família. Mas os recursos eram poucos. Antibióticos ainda eram raros, exames praticamente inexistiam naquela realidade e muitas enfermidades que hoje seriam tratadas com relativa facilidade acabavam levando crianças e adultos à morte.

O menino não reagiu.

E morreu.

Para aquele pai, porém, não morreu apenas o filho.

Morreu o único filho.

A dor transformou-se rapidamente em revolta.

Inconformado, o homem praguejou, gritou e, tomado pelo desespero, anunciou para quem quisesse ouvir:

— Se meu filho morreu, eu vou matar o médico!

Não parecia uma ameaça vazia.

Armado com um facão, saiu em direção ao hospital.

A pequena vila percebeu rapidamente o que estava acontecendo. Numa comunidade daquele tamanho, uma voz alterada na rua bastava para que portas se abrissem, pessoas aparecessem nas janelas e a notícia percorresse algumas quadras antes mesmo de o fato terminar.

A cerca de oitenta metros do hospital estava Júlio Caminha.

Era daqueles homens simples que faziam parte da paisagem das pequenas povoações. Caboclo trabalhador, vivia do plantio em parceria e também da limpeza dos enormes terrenos existentes na vila. Quase sempre carregava sua enxada.

Naquela tarde, a ferramenta de trabalho virou instrumento de defesa.

Ao perceber o homem avançando com o facão, Júlio levantou a enxada e tentou detê-lo.

Talvez tenha pedido calma. Talvez tenha tentado fazê-lo pensar no que estava fazendo.

Mas havia momentos em que a dor falava mais alto do que qualquer argumento.

Do outro lado da rua, na casa de comércio, Romário Rosa Lopes acompanhava a cena ao lado de alguns funcionários e curiosos.

Entre eles estava Israel Capellari, então um gurizote de apenas 16 anos.

Todos observavam.

O homem continuava avançando.

Romário percebeu que aquilo poderia terminar em tragédia.

Entrou rapidamente no estabelecimento, foi até o balcão e pegou o revólver calibre 38 que permanecia carregado para alguma eventualidade — coisa nada incomum nos estabelecimentos comerciais daqueles tempos.

Voltou até a janela.

Apoiou-se num dos cantos.

Mirou.

E disparou.

Um tiro só.

O estampido atravessou a avenida.

A gritaria cessou imediatamente.

O homem permaneceu por um instante como se ainda tentasse entender o que havia acontecido e, em seguida, caiu no chão.

Morto.

Depois do tiro veio algo talvez ainda mais impressionante:

o silêncio.

Por alguns instantes, ninguém parecia saber o que fazer.

As pessoas permaneceram imóveis nas portas, nas janelas e nas calçadas de terra. Era como se aquela pequena vila precisasse de alguns minutos para compreender que um homem acabara de morrer diante de todos.

Depois começaram os comentários.

As pessoas se aproximaram.

Cada um reconstruiu a cena à sua maneira.

E, como costuma acontecer nas pequenas comunidades, em pouco tempo todos tinham uma opinião.

A maioria acabou tomando partido daquele que havia impedido que o médico fosse morto.

O episódio, segundo os relatos que atravessaram os anos, terminou reconhecido como legítima defesa de terceiro.

Terá sido aquele o primeiro homicídio ocorrido nas ruas da vila depois dos tempos turbulentos da passagem da Coluna Prestes, cerca de duas décadas antes.

Com o passar dos anos, a velha rua de chão ganhou nome.

Virou Avenida Santa Rosa.

Vieram o calçamento, depois o asfalto. As antigas casas de madeira desapareceram. O pequeno hospital também ficou apenas nas fotografias, documentos e lembranças daqueles que o conheceram.

Os automóveis substituíram as carroças. Os médicos passaram a permanecer na cidade. A medicina avançou. As crianças que naquela época morriam de doenças quase sempre inexplicáveis passaram a ter hospitais, exames, antibióticos e vacinas.

Mas algumas histórias permaneceram.

Durante décadas, antigos moradores ainda lembravam daquela tarde de 1949.

Lembravam do pai enlouquecido pela morte do filho.

Do facão.

Da enxada levantada no meio da rua.

Do comerciante encostado na janela.

E, principalmente, daquele único estampido que, por alguns segundos, fez uma vila inteira se calar.

Hoje passam carros pela Avenida Santa Rosa sem que seus ocupantes imaginem que, num tempo em que aquela avenida ainda nem tinha nome, ali ocorreu uma das histórias mais dramáticas da velha Tenente Portela