Já de início devo dizer que Vina é um apelido, um daqueles apelidos domésticos que a família, usando diminutivos, impõe a alguns de seus integrantes, às vezes por carinho, outras apenas para simplificar o nome dado pelos pais. No caso da tia Vina, eu acho que foi pelo segundo motivo. Afinal, na pia batismal lhe impuseram o nome de Edelvina e, convenhamos, é meio difícil chamar uma criança por um nome desses. Ficou apenas Vina. Não só na infância, mas por toda a vida. Pela eternidade.
Vina acumulou alguns infortúnios que não atingiram os irmãos. Foi vítima de doenças infantis e acabou se acidentando com água quente, prejudicando um pouco os movimentos de um dos antebraços. Nada, mas nada mesmo, que impedisse que aprendesse com destreza as atividades domésticas.
Enquanto ela se envolvia com os afazeres da casa, às vezes até passando as camisas e os vestidos dos irmãos e das irmãs — que não eram poucos, doze ao todo —, os outros iam se preparando para o futuro. Um a um arrumavam namorados e namoradas e, em geral, casavam com o primeiro ou a primeira que aparecia. As opções, a bem da verdade, no interior e em zonas pouco habitadas como naquela época, eram muito poucas.
Foi assim até que Vina percebeu que não havia mais ninguém em casa além do pai e da mãe. E era ela quem tomava conta de tudo.
O tempo foi passando, o pai e a mãe envelhecendo, e Vina tornando-se cada vez mais indispensável no lar paterno. Nunca se interessou — ou talvez nunca tenha tido a oportunidade — de arrumar um namoro. Não ia a bailes. Afinal, alguém tinha que ficar com o papai e a mamãe.
O tempo passou e vieram os sobrinhos. Aliás, muitos. Logo juntaram as duas palavras e surgiu a Tiavina, nome que acabou sendo assimilado também pelos irmãos, irmãs e cunhadas.
Ninguém é eterno. Lá pelos anos 70 faleceu primeiro a nona e, não muito tempo depois, o nono. A Tiavina passou, então, a viver temporadas nas casas das irmãs. Lá em casa ela se aquerenciou por muitos anos. Afinal, minha mãe tinha seis meninos, e a ajuda da Tiavina era quase essencial, além de representar uma boa economia para uma família grande.
Eu era o protegido da solteirona. Arteiro, como sempre fui, ela me escondia embaixo do monte de roupas sujas quando eu era perseguido pela mãe e pela chinela, depois de realizar uma das muitas artes infantis.
Foi assim por anos.
Quando recebi meu primeiro salário, não sei por qual motivo, separei uma cédula e dei de presente para a tia Vina. Ela, a princípio, não acreditou. Depois me abraçou e agradeceu. Colocou, como era de costume, a nota no sutiã.
Repeti por muito tempo o gesto. Porém, nunca soube que ela tivesse ido um dia sequer a uma loja para comprar alguma coisa para si.
Nos anos seguintes, a tia passou a residir com uma irmã e, depois, com uma prima, onde ficou até falecer. Na casa da Clair permaneceu por décadas e foi uma segunda mãe para os filhos dela, assim como havia sido para nós lá em casa.
Aos 98 anos, já cega, locomovia-se com o auxílio de uma bengala, tateando entre os móveis.
Até que a Tiavina faleceu.
Dela ficaram saudades e lembranças que fazem parte da minha infância.
E o dinheiro?
Depois de sua morte descobriram que ela guardava um saquinho cheio de notas e moedas de todo tipo. Muitas já estavam fora de circulação. Era o pequeno tesouro da Tiavina, guardado durante anos, talvez durante uma vida inteira.
Para quê?
Ninguém jamais saberá.
Ninguém jamais soube.