Especiais JALMO
Tibica
Um tombo que mudou uma vida
19/08/2026 17h03
Por: Jalmo Fornari

 

Desde guri, o futebol corria nas veias. Ainda adolescente, começaram a surgir oportunidades e convites, inclusive de clubes da Capital. Órfão, o menino Tibica aproveitava as oportunidades que apareciam, conciliando o sonho de jogar futebol com a necessidade de garantir a própria sobrevivência.

Em 1965, depois de algumas incursões, inclusive pelo Internacional de Porto Alegre, numa época em que o futebol profissional ainda estava longe de proporcionar a segurança financeira que alcançaria anos mais tarde, o jovem Tibica jogava em uma das melhores equipes da cidade de Ijuí.

Foi então que recebeu o convite de um amigo, Ari Mazoco, para se integra a equipe do glorioso Miraguay de Tenente Portela.

E, guardadas as proporções da época, glorioso era mesmo. O Miraguay vinha de campanhas memoráveis, conquistando títulos inéditos no futebol regional e até estadual em sua categoria.

Pesaram na decisão o convite de Mazoco, a amizade dos dois, que vinha desde os tempos de estudantes, e também a possibilidade de jogar e, quem sabe, conseguir um emprego. Afinal, naquele tempo, muitos atletas que chegavam à cidade para defender o Miraguay acabavam encontrando uma vaga na Prefeitura, no Banrisul, nos Correios ou em alguma outra atividade pública. Eram tempos em que concurso público ainda estava mais no desejo de alguns políticos do que propriamente na prática administrativa.

Convencido, Tibica veio conhecer Tenente Portela “a bordo” de um jipão daqueles antigos, de quatro portas. Nada mal. Foi bem recebido e gostou daquela pequena cidade que, apesar do tamanho, despontava no esporte bretão.

Dias depois, arrumou as malas, despediu-se do irmão e embarcou definitivamente para Portela.

Era 19 de agosto de 1965.

O ônibus da valorosa Empresa Sertaneja de Transportes partiria da velha rodoviária de Ijuí no final da tarde e deveria chegar a Tenente Portela por volta das dez da noite. Dali seria um pulo até o Hotel Bighilini, onde ficaria hospedado.

Agosto escurece cedo. O frio era de renguear cusco e, dentro do ônibus, amontoavam-se dezenas de passageiros que fariam a viagem até o fim da linha.

Mal o velho motor Mercedes começou a roncar, veio a chuva.

No final da Avenida do Comércio começou o calvário: estrada de chão, barro e lama. A noite chegou depressa. Depois da chuva, perplexos, os passageiros começaram a perceber algo branco caindo do céu.

Era neve.

A mesma neve que ficaria registrada na história climática do Noroeste gaúcho.

O ônibus, como se chorasse e dançasse ao mesmo tempo, ameaçava não vencer os tombos, as subidas e os trechos mais íngremes da estrada. Por cautela e experiência, o motorista decidiu mudar o itinerário. Não seguiria mais por Coronel Bicaco, Redentora e Miraguaí. Com a lama e a neve tornando a viagem ainda mais difícil, resolveu ir por Três Passos.

O desvio aumentou consideravelmente o percurso.

Naquela noite, a viagem só terminou por volta da meia-noite.

Na pequena rodoviária de madeira, o velho ônibus, ainda fumegando na noite gelada, finalmente parou. Sonolentos e cansados, os passageiros começaram a descer.

Tibica esperou a abertura do bagageiro e retirou suas duas malas. Praticamente tudo o que possuía na vida estava dentro delas.

E se “infurnou” noite adentro.

Agora a chuva havia passado. Restavam pequenos flocos de neve caindo lentamente e uma lama que praticamente engolia os sapatos nas ruas da cidade.

Aliás, calçamento mesmo havia muito pouco: apenas um trecho irregular, de cerca de duzentos metros, da casa do ex-prefeito Romário até a Loja dos Ammar.

A escuridão e a lama foram os primeiros desafios de uma jornada que já dura mais de seis décadas.

Na descida da Comercial Pinheiro, o jovem tropeçou.

Foi ele para um lado e as malas, rampa abaixo.

Uma delas desapareceu na escuridão.

Foram necessários vários minutos de procura até que finalmente fosse encontrada, completamente enlameada, dentro de uma sarjeta no final da rua.

Depois de vencer a viagem, a chuva, a estrada, a neve, a escuridão, a lama e ainda o tombo, o recém-chegado não se conteve. Olhou para aquele cenário e desabafou:

Meu Deus! O que vim fazer neste inferno?!

Mal sabia ele que aquele “inferno” se transformaria em sua terra.

Tibica foi recebido com entusiasmo pelo clube e logo se destacou como uma das estrelas daquele grande Miraguay. Recém-chegado, recebeu três propostas de trabalho. Optou pela Prefeitura Municipal, onde construiu sua carreira funcional, atuou como fiscal, participou da implantação da merenda escolar e, anos depois, aposentou-se.

Também foi para o Legislativo e teve longa atuação na Câmara de Vereadores.

Mas havia uma identidade que jamais o abandonaria: a do homem do esporte.

O atleta, o apaixonado pelo futebol, o rapaz que gostava de contar que, em Ijuí, jogava de igual para igual com o pai do Dunga; ele que, por decisão própria, acabou não seguindo como atleta do Colorado.

Tibica jogou futebol até perto dos 50 anos. E, quando deixou de correr atrás da bola, continuou correndo junto dela.

Transformou-se em um dos árbitros mais respeitados da região.

Quando aparecia aquele jogo complicado, clássico quente, decisão valendo taça, partida em que ninguém queria assumir o apito, a solução era quase sempre a mesma:

Chama o Tibica!

Assim começou uma história.

Sob uma das maiores nevascas de que esta região tem lembrança, carregando duas malas, atolando os sapatos na lama e perguntando a Deus o que tinha vindo fazer naquele fim de mundo.

A resposta veio com o tempo.

Aqui Tibica trabalhou. Aqui jogou futebol. Aqui apitou. Aqui participou da vida pública. Aqui casou, constituiu sua família, fez amigos e criou raízes.

E aquela cidade que, na primeira noite, lhe deu neve, lama e até um tombo acabaria lhe dando também um lugar definitivo em sua história.

Ou talvez tenha acontecido o contrário.

Foi Tibica quem conquistou um lugar definitivo na história de Tenente Portela.