Dr. Jalmo Fornari, historiador e jornalista
Neste 18 de agosto de 2026, o município de Tenente Portela celebra seus 71 anos de emancipação político-administrativa de Três Passos, município ao qual pertencia como distrito, situado do outro lado do Rio Turvo e marcado, desde os seus primórdios, por características muito singulares.
A história de Portela, no entanto, começa muito antes da emancipação. A ocupação da região onde atualmente está localizado o núcleo urbano remonta ao final do século XIX e ao início do século XX, embora existam registros de expedições realizadas muito anteriormente.
Conforme anotação do historiador Mozart Pereira Soares, em sua obra Santo Antônio da Palmeira, o primeiro registro da chegada de homens com o propósito de conhecer e demarcar a área onde hoje está situado o município de Tenente Portela remonta a 1754. Naquele ano, a Câmara de Vereadores de Cruz Alta, jurisdição à qual pertencia a área geográfica, teria contratado um tenente do Exército Nacional para comandar uma expedição às matas dos “costilhares” do Rio Uruguai.
O objetivo era avaliar o potencial dos ervais nativos, uma vez que a erva-mate já possuía razoável valor comercial. A expedição registrou a existência de extensas áreas de ervais nas proximidades de onde, posteriormente, se formaria a sede do município.
Além desse registro, relatos ainda mais antigos mencionam a passagem de jesuítas pela região do Rio Uruguai, percorrendo trechos dos rios Guarita e Turvo. Eles teriam atravessado estas terras em viagens entre a região da Foz do Iguaçu e os Sete Povos das Missões, seguindo em ambos os sentidos.
No final do século XIX, com o advento da Revolução Federalista de 1893, dezenas de famílias, acuadas pelos grupos vitoriosos, adentraram as matas da região. Estabeleceram pequenas lavouras de subsistência e passaram a dedicar-se também à colheita da erva-mate nativa.
Entre essas famílias estavam algumas de origem portuguesa, como os Lima, os Fortes e os Castro. Esta última descendia de imigrantes vindos do sul de Minas Gerais, de uma região conhecida como Caxambu, que mais tarde também se tornaria município. Em razão dessa procedência, receberam a alcunha de “caxambus”, denominação que muitos de seus descendentes carregam até hoje.
Em decorrência da presença de comunidades indígenas kaingang e guarani, o local onde essas famílias se estabeleceram, ao que se sabe, já possuía o nome indígena de Pari — ou Paris. Um dos rios que atravessava aquelas terras recebeu, inclusive, a denominação de Parizinho.
O pari era um sistema utilizado pelos indígenas para a pesca. Tratava-se de uma armadilha formada por um tapume de estacas, construído de um barranco ao outro do rio. No centro, deixava-se uma abertura pela qual os peixes, sem encontrar outra passagem, eram conduzidos até um compartimento com fundo de tela, onde ficavam retidos.
Na década de 1920, a principal ligação do lugarejo era com Campo Novo, local onde prosperava a indústria da erva-mate. Comboios de mulas transportavam pesados fardos até a vila, que possuía mais de 20 estabelecimentos espalhados por seu território e dedicados ao beneficiamento do produto.
Em Pari, segundo contavam os moradores mais antigos, existiam pelo menos oito “noques” de erva-mate. Os noques eram locais onde a erva, depois de cancheada — isto é, cortada e trabalhada pelos ervateiros com grandes facões —, era armazenada. Posteriormente, o produto era colocado em sacas e transportado até o soque, onde o beneficiamento era concluído.
Em meados da década de 1920, a localidade sofreu o impacto da passagem da Coluna Prestes. Como muitos moradores eram simpatizantes dos maragatos, passaram a sofrer perseguições da Brigada Militar e das autoridades municipais fiéis ao governo de Borges de Medeiros.
É importante recordar que os maragatos haviam sido derrotados na Revolução de 1923, encerrada pelo Pacto de Pedras Altas. As perseguições aumentaram depois da passagem da Coluna Prestes, igualmente adversária do governo estabelecido. As tropas oficiais eram formadas por militares da Brigada Militar e por civis que integravam os temidos corpos provisórios.
O apoio oferecido pelas famílias maragatas de Pari aos integrantes da Coluna Prestes custou muito caro. Conforme depoimentos colhidos pelo autor para a elaboração do livro O Tenente Portela e a Coluna Prestes, pelo menos cinco noques de erva-mate foram incendiados somente em 1925. Diversas famílias também foram obrigadas a abandonar a região, migrando para a Argentina.
Um exemplo dessas perseguições foi o caso de Belizário Caxambu, também ervateiro. Com a esposa grávida do filho mais novo, Pedro Simplício de Castro, ele foi obrigado a fugir para a Argentina, onde a criança nasceu. A família somente retornou a Pari em 1927.
Embora a exploração da erva-mate ainda estivesse em plena atividade no início dos anos 1930, as políticas do governo estadual começaram a abrir espaço para a exploração madeireira. Aos poucos, a erva passou a ocupar uma posição secundária na economia regional.
A possibilidade de enriquecimento rápido atraiu centenas de aventureiros. Com as grandes derrubadas, iniciou-se o período áureo das balsas de madeira, que utilizavam o Rio Uruguai como via de transporte. As toras eram conduzidas, geralmente, até Santo Tomé, na Argentina, porto localizado em frente a São Borja.
Alguns projetos megalomaníacos, embora efêmeros, como o de Pedro Garcia, provocaram a vinda de trabalhadores de outros países, especialmente do Paraguai, para atuar na retirada da madeira. Como consequência dessa exploração, surgiram as primeiras serrarias da região.
No início da década de 1940, a localidade passou a ser chamada de Miraguay, em homenagem a um líder indígena. A denominação simbolizava a convivência entre brancos, caboclos e indígenas da região.
A Terra Indígena do Guarita, com área original de 23.183 hectares, já havia sido demarcada em 1918, em um trabalho realizado pela Comissão de Terras de Palmeira das Missões.
Naquele período, existiam aproximadamente 90 famílias na Vila Miraguay e em suas proximidades. A maioria dos imigrantes que chegava à região era oriunda da Serra Gaúcha, de Palmeira das Missões — então sede municipal — e do Alto Uruguai. Entre os sobrenomes que se tornaram comuns estavam Fibig, Malmann, Panassolo, Salamoni, Machado, Chiodi e Vicenzi.
Em 1942, por determinação do então interventor estadual, coronel Osvaldo Cordeiro de Farias, a vila mudou novamente de nome, passando a chamar-se Tenente Portela.
A denominação foi uma homenagem ao tenente do Exército Nacional Mário Portela Fagundes, que, juntamente com Cordeiro de Farias, integrou a Coluna Prestes, movimento rebelde formado, em sua maioria, por tenentes e soldados revoltosos e que atravessou a região em 1925.
Portela, um dos líderes e destacados articuladores do movimento, havia sido morto em uma emboscada promovida pelo 6º Corpo Auxiliar da Brigada Militar, às margens do Rio Pardo, no atual município de Pinheirinho do Vale. Na ocasião, ele fazia a retaguarda da Coluna, comandando um pelotão de 18 homens.
Com a emancipação de Três Passos, ocorrida em 1944, a vila de Tenente Portela foi elevada à condição de distrito do novo município, que havia se emancipado de Palmeira das Missões.
A distância em relação à sede municipal, o trabalho da Inspetoria de Terras e Colonização de Frederico Westphalen e a constante chegada de novos moradores contribuíram para a formação de uma infraestrutura básica, composta por hospital, hotéis, armazéns e entrepostos comerciais. Essas condições despertaram e fortaleceram o sentimento emancipacionista.
Depois de pelo menos uma tentativa frustrada de emancipação, os moradores receberam, em maio de 1955, por meio das ondas do rádio — um dos mais eficientes meios de comunicação da época —, a notícia de que a Assembleia Legislativa do Estado havia aprovado a realização de uma consulta plebiscitária.
Liderados pelo pároco local, padre Albino Busato, os moradores criaram uma comissão que mobilizou toda a microrregião em busca de um resultado favorável.
A consulta ocorreu em 3 de julho de 1955. No plebiscito, 1.810 cidadãos compareceram às urnas. A grande maioria, formada por 1.782 eleitores, votou a favor da criação do novo município. Sete pessoas votaram contra, uma votou em branco e 20 tiveram seus votos anulados.
O município de Tenente Portela foi criado pela Lei Estadual nº 2.673, assinada em 18 de agosto de 1955 pelo então governador gaúcho Ildo Meneghetti. A lei foi publicada no Diário Oficial do Estado em 22 de agosto daquele ano.
A primeira eleição municipal para a escolha do prefeito e do vice-prefeito ocorreu somente em 3 de outubro de 1955, juntamente com as eleições gerais. Entre agosto e outubro, entretanto, o processo foi marcado por intensas negociações.
Sabe-se que existiam pelo menos nove grupos partidários disputando espaço na comunidade. Temendo que essa disputa marcasse negativamente a escolha do primeiro chefe do Executivo, recorreu-se à intervenção da Comissão de Emancipação, que funcionou como uma espécie de colegiado conciliador.
A comissão decidiu convidar o engenheiro civil Arthur Ambros para concorrer ao cargo. Inicialmente, ele apresentou algumas dificuldades, entre elas o fato de sua família não residir em Portela. Diante da unanimidade em torno de seu nome, acabou aceitando a indicação.
Ambros tinha, por um lado, a desvantagem de não possuir raízes profundas na comunidade e, consequentemente, não manter vínculos estreitos com os grupos locais. Por outro, pesava muito a seu favor o fato de ter sido, em 1930, o primeiro prefeito do município de Santa Rosa.
Arthur Ambros não chegou a concluir o mandato, em 1959 passou o cargo para o Vice Romário Rosa Lopes. Informações imprecisas dizem que o comportamento político de alguns “companheiros”, teria se irritado, deixado o cargo e retornado a Porto Alegre. Na verdade, a distância da família e um acidente ocorrido com um filho o motivaram a desistir da administração de Tenente Portela e retornar para a família na Capital.
Apesar da curta permanência, sua passagem deixou marcas profundas e permanentes no novo município. Como engenheiro, projetou ruas, praças e áreas de preservação, entre elas o Bosque Municipal.
Em homenagem à sua própria origem — sua mãe era indígena —, determinou que a maioria das ruas da cidade recebesse nomes ligados à cultura indígena, como Caipó, Guarani, Pindorama, Anhangabaú, Gaurama, Tapes e Tupis. A principal e mais ampla avenida recebeu o nome da cidade que havia administrado anteriormente: Santa Rosa.
Com a renúncia de Arthur Ambros, assumiu o vice-prefeito Romário Rosa Lopes, que seria eleito prefeito no pleito seguinte.
Romário iniciou os trabalhos de implantação e ampliação da infraestrutura urbana, promovendo calçamentos e a extensão das redes de energia elétrica e de telefonia.
A propósito, a energia elétrica havia chegado à cidade em 28 de maio de 1955, poucos meses antes da emancipação.
Os prefeitos eleitos continuaram se sucedendo mesmo após o golpe militar de 1964. A partir de 1968, com o endurecimento do regime e a vigência do Ato Institucional nº 5, Tenente Portela, assim como capitais, estâncias hidrominerais e municípios fronteiriços classificados como áreas de segurança nacional, deixou de realizar eleições diretas para a escolha de seus administradores.
Os prefeitos de Tenente Portela — na prática, interventores — passaram a ser nomeados pelo governador do Estado, que, por sua vez, também era escolhido indiretamente durante o regime militar.
Esse processo, que anulava a participação popular na escolha dos administradores municipais, perdurou até o fim da ditadura. Com a redemocratização do país, ocorreu, em 15 de novembro de 1985, a eleição do então vereador Odilo Gabriel para um mandato de três anos, até as eleições gerais realizadas em 1988.
A escolha do nome Tenente Portela para designar o município deve-se, quase exclusivamente, ao fato de que um de seus companheiros na Coluna Prestes, Osvaldo Cordeiro de Farias, chegou ao cargo de interventor do Estado e decidiu prestar uma merecida homenagem ao “Portelinha”, como Mário Portela Fagundes era chamado pelos colegas de farda.
Na época, pouco se sabia por aqui sobre a história daquele tenente, embora a passagem da Coluna Prestes, com seus mitos, personagens e causas, já habitasse o imaginário popular.
Portela foi um dos muitos heróis do movimento tenentista brasileiro. Em relação ao movimento sulista, deflagrado em 1924, foi, sem dúvida, um de seus principais personagens. Sua biografia revela um jovem idealista, profundamente preocupado com as desigualdades e com as mazelas enfrentadas pela população brasileira na primeira metade do século XX.
Mário Portela Fagundes nasceu em Pelotas, em 15 de julho de 1898. Seus pais, José Silva Fagundes e Gabriela Portela Fagundes, tiveram outros quatro filhos.
As dificuldades financeiras enfrentadas durante a Primeira Guerra Mundial obrigaram a família a adaptar-se a uma realidade de muitas necessidades. Ainda adolescente, para auxiliar nas despesas da casa, Mário ministrava aulas de Matemática e estudava à noite. Durante determinado período, chegou a exercer atividades agrícolas durante o dia, embora seu grande sonho fosse cursar Engenharia.
Aluno extremamente aplicado, mantinha com seus professores uma relação que ultrapassava os limites da sala de aula. Trocava correspondências com os mestres, debatendo questões sociais, culturais e até mesmo didáticas.
Entre esses professores estavam nomes conhecidos, como o escritor João Simões Lopes Neto, notável talento da literatura rio-grandense, e Fernando Luís Osório, jornalista, professor, escritor, diplomata e advogado, filho do Marquês do Herval.
Ainda adolescente, Mário mudou-se com a família para Porto Alegre, onde teve a oportunidade de matricular-se no Ginásio Júlio de Castilhos, o tradicional Julinho.
Para avançar mais rapidamente nos estudos, passava as férias escolares estudando, a fim de prestar os exames da série seguinte quando retornasse às aulas. Em 1919, foi aprovado, com excelente classificação, na Escola Militar do Rio de Janeiro. Aplicado, manteve-se entre os primeiros colocados de sua turma.
Na Escola Militar, um dos centros do debate intelectual da época, aguçou ainda mais sua consciência social e política diante das profundas desigualdades existentes no país.
Construiu amizades sólidas, entre elas com o tenente Luiz Carlos Prestes, que igualmente defendia, assim como grande parte dos jovens oficiais do Exército, ideias de transformação social. Entre essas propostas estavam a universalização do voto, a ampliação do acesso à escola e à cultura e a garantia de condições básicas de vida para a maioria dos brasileiros marginalizados.
Depois de concluir seus estudos no Rio de Janeiro, Mário retornou ao Rio Grande do Sul, onde assumiu funções no Batalhão Ferroviário. Sua dedicação e seu empenho ganharam ainda mais destaque.
Atento aos movimentos políticos que fervilhavam no país, Mário Portela Fagundes, durante uma ordem unida realizada em 14 de julho — data que recordava a Queda da Bastilha, marco da Revolução Francesa de 1789 —, fez uma analogia entre as dificuldades brasileiras e a derrubada da nobreza francesa.
Dias depois, quando o teor da manifestação chegou ao conhecimento do comando, foi decretada a prisão de Portela, mesmo ele estando em viagem oficial a serviço do Batalhão.
Naquela época, em uma carta dirigida ao irmão Albino, o jovem tenente revelou seu ímpeto revolucionário e sua disposição de lançar-se à luta em defesa de seus ideais:
“O que idealizei aos 14 anos me foi dado a cumprir totalmente. Recém agora posso dispor de minha vida e vou dá-la por um Brasil melhor, onde haja mais justiça e mais amor ao próximo.
Tínhamos articulado cuidadosamente um movimento revolucionário a ser deflagrado aqui e em todas as demais guarnições ao mesmo tempo, no mesmo dia. Vim para as últimas providências e acabo de verificar que fomos traídos. Mas não censuro ninguém. Todos têm o direito muito humano de mudar as suas atitudes, desde que considerem melhores as novas.
Eu disse para o papai e a mamãe que daqui a uma semana estarei de volta, para tranquilizá-los. Não lhes diga nada a esse respeito, mas eu sei que não volto mais. Nossa palavra está empenhada nesta causa nobre de provocar pelo menos o despertar do Brasil.
Sei que vou para a morte, mas vou. A vocês peço apenas que não se envolvam em nada e permaneçam unidos. Para este sacrifício dos nossos basta um, e quero partir tranquilo de que a vocês não faltará amparo moral nem recursos.”
Mário Portela Fagundes e Luiz Carlos Prestes, que naquele período também servia no quartel de Santo Ângelo, aproveitaram o episódio e a prisão não concretizada para organizar um movimento no Sul, em adesão às insurreições tenentistas que eclodiam no centro do país.
Em São Paulo, por exemplo, no dia 5 de julho de 1924, militares liderados por Miguel Costa iniciaram uma revolta que acabou sendo sufocada pelo governo. Os revoltosos foram obrigados a seguir para o interior, em direção à fronteira com o Paraguai.
Finalmente, em 28 de outubro de 1924, Santo Ângelo e outros quartéis do Rio Grande do Sul se sublevaram. Iniciaram-se os confrontos com as forças legalistas.
O governo reagiu montando o chamado “anel de ferro” em torno de São Luiz Gonzaga. Prestes e Portela conseguiram escapar. Depois de algumas escaramuças e de uma grande batalha na localidade da Ramada, ocorrida após a retirada de Ijuí, em 3 de janeiro de 1925, na qual pereceram centenas de homens, o grupo de revoltosos comandado por Prestes e Portela dirigiu-se para as matas do Rio Uruguai.
Portela ganhou ainda mais respeito entre os comandantes da Coluna devido às estratégias utilizadas para romper o cerco inimigo.
Perseguidos pelas forças governistas, os revolucionários tinham como objetivo atravessar o Rio Uruguai e unir-se aos revoltosos paulistas, que já se encontravam na região de Foz do Iguaçu.
Em 11 de janeiro de 1925, chegaram ao povoado de Pari, onde acamparam para reunir forças e prosseguir na marcha. Dias depois, a Coluna se dividiu. O tenente Mário Portela recebeu a missão de permanecer na retaguarda, retardando o avanço dos militares e dos corpos provisórios que tentavam impedir a saída dos revoltosos do território gaúcho.
No dia 24 de janeiro, os revolucionários comandados por Portela aguardavam apenas o amanhecer do dia 25 para deixar o Rio Grande do Sul e ingressar em Santa Catarina, onde pretendiam se reunir aos homens de Prestes.
O inesperado, entretanto, aconteceu.
Um destacamento do 6º Corpo Auxiliar da Brigada Militar realizou uma emboscada e matou quase todos os revoltosos.
A resistência oferecida por Mário Portela comoveu até mesmo os combatentes adversários. Em seu diário, o capitão Pedro Sales de Oliveira Mesquita escreveu:
25 de janeiro de 1925
“Da madrugada, nem bem a estrela-d’alva surgia no espaço, todos nos levantamos. (…) Antes de providenciarmos sobre a volta, mandamos proceder ao enterramento dos corpos que estavam amontoados à beira do rio e dos que haviam sido retirados da água na véspera.
Todos apresentavam horrível expressão, olhos fora das órbitas e boca medonhamente escancarada, com exceção do major Portela, que conservava, após a morte, aquele mesmo sorriso triste que em vida o acompanhava.
Pobre moço! Jovem inteligentíssimo, estimado por todos que o conheciam, tendo diante de si um grande futuro, sacrificou tudo na defesa de uma causa tão inglória quanto estúpida!
Movido por um sentimento de piedade humana, pedi licença ao coronel Edmundo para enterrá-lo em separado. Lá ficou, à sombra melancólica de uma pitangueira, o corpo do malogrado moço.
Sobre o tronco da árvore escrevi o seguinte: ‘Aqui jaz o major Mário Fagundes Portela — morreu como um bravo na defesa de uma causa ingrata’.”
Setenta e um anos depois da emancipação, Tenente Portela continua carregando não apenas o nome daquele jovem militar, mas também uma longa história construída por indígenas, caboclos, ervateiros, agricultores, comerciantes, religiosos, trabalhadores e famílias vindas de diferentes lugares.
Conhecer essa trajetória é compreender que o município não nasceu apenas com a assinatura de uma lei. Ele foi sendo construído muito antes, no interior das matas, nos ervais, nos caminhos percorridos pelas tropas, nas pequenas lavouras, nas primeiras serrarias, nas lutas políticas e no esforço cotidiano de gerações que transformaram um antigo povoado em uma cidade.
Celebrar os 71 anos de Tenente Portela é, portanto, homenagear todos aqueles que ajudaram a escrever essa história e reafirmar o compromisso de preservar sua memória para as gerações que ainda virão.