Especiais JALMO
Serafina na minha infância
Viajando no tempo
12/08/2026 11h36
Por: Jalmo Fornari

Meus pais, ambos pioneiros neste município, vieram de cidades de colonização italiana, localizadas em outras regiões do Rio Grande do Sul.

Minha mãe tinha um orgulho todo especial em contar que era de Tapera. Falava com alegria — e, muitas vezes, com os olhos marejados — sobre as proezas de uma infância pobre e cheia de limitações. Contava do monte de irmãos que vivia com os pais em uma pequena casa e lembrava, ainda com um pavor quase juvenil, da praga de gafanhotos que assolou a propriedade da família e obrigou seu pai a buscar novos horizontes.

Meu pai falava com o mesmo orgulho de sua Linha Nona, em Serafina Corrêa, então distrito de Guaporé. Era o seu chão natal.

Na verdade, ele guardava poucas lembranças da Linha Nona, pois saiu de lá ainda muito pequeno. Mas aquele continuava sendo o seu chão. O lugar onde seu avô — meu bisavô Anibale, italiano nascido em Torre Pallavicina — escolheu morar, trabalhar e criar os filhos, até que eles atingissem a maioridade e se dispersassem pelo mundo.

O nonno Anibale chegou analfabeto, mas aprendeu a ler no catecismo e nos livros de canto da igreja. Era um homem respeitado pela comunidade e mereceu a confiança de dirigir uma pioneira cooperativa de produção de vinho. Hoje, seu nome está em uma das ruas de Serafina Corrêa.

Serafina foi uma das primeiras cidades a povoar minha imaginação quando meu pai contava suas histórias de infância. Para mim, aquele nome de cidade — que era também nome de mulher — ficou gravado na memória. Era um lugar distante, cercado de mistérios e fantasias.

Curiosamente, embora já tivesse conhecido até outros países, somente fui visitar a Serafina de meu pai quando eu próprio já tinha os meus filhos.

Ora, por que estou falando disso agora?

Hoje pela manhã, quando me dirigia ao trabalho, aqui mesmo em minha cidade, deparei-me com uma ambulância de Serafina Corrêa estacionada na rua do nosso Hospital Santo Antônio.

O hospital, graças ao empenho e à dedicação de pessoas especiais, transformou-se em uma referência regional, apesar de estar instalado em uma cidade de apenas 15 mil almas.

Ambulâncias de outros municípios são presenças corriqueiras nas ruas próximas ao hospital, onde também moro, a uma distância de aproximadamente 150 metros. Às vezes aparecem veículos do sistema de saúde de Ijuí, Rodeio Bonito, Sarandi, Marau, Três Passos, Palmitinho e de tantos outros lugares.

Mas aquela ambulância era de Serafina Corrêa.

O veículo trouxera, sei lá eu quem, em busca de socorro médico em Tenente Portela. Nem precisava saber quem era. A presença daquela ambulância foi suficiente para avivar lembranças e despertar saudades.

Fiquei imaginando se meu pai teria sonhado, alguma vez na vida, que o lugarzinho escolhido por ele para viver ao lado de mamãe se transformaria, tantas décadas depois, em ponto de abrigo e socorro para pessoas vindas de sua própria terra natal.

Por alguns instantes, naveguei pelas névoas da memória. Lembrei-me do pequeno prédio de madeira que abrigava o primeiro hospital no tempo em que meus pais chegaram aqui. Pensei na passagem dos anos e em tudo o que eles puderam acompanhar.

A velha vila de Portela cresceu e se transformou em uma pequena cidade capaz de receber pessoas de vários lugares em busca de atendimento médico. Inclusive pessoas vindas da distante Serafina Corrêa.

Naquele instante, percebi que não era apenas uma ambulância estacionada diante do hospital.

Era a Serafina de meu pai que, depois de tantos anos, vinha parar na minha rua.