Desde ontem (1º/8), a gasolina comum comercializada no Brasil passou a ter 32% de etanol em sua composição. A elevação na mistura foi aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) no dia 14 de julho.
Até então, o percentual era de 30%. A mudança desperta dúvidas entre os motoristas quanto ao impacto sobre os veículos. Afinal, a diluição da gasolina pura prejudica a performance e saúde dos motores?
Especialistas consultados por Zero Hora explicam que os efeitos da mistura são observados principalmente nos carros que não são flex, ou seja, aqueles anteriores à tecnologia que permite aos veículos rodarem com álcool ou gasolina.
Do total de 4,6 milhões de automóveis circulando no Rio Grande do Sul, somente 51,60% (2,4 milhões) são flex. Os dados são do Sindicato dos Concessionários e Distribuidores de Veículos (SINCODIV-RS).
Mecânico de carros em Novo Hamburgo, no Vale do Sinos, Sandro Aguiar diz que os maiores danos são identificados em componentes internos, como desgaste das velas de ignição e queima da junta do cabeçote.
Todos os componentes que entram em contato direto com o combustível podem ter algum dano se não forem preparados para a composição atual de etanol. Os efeitos dependem do modelo do veículo, do ano e da origem de fabricação. Mas, em geral, podem elevar os custos de manutenção dos motores como um todo.
Para o mecânico Fernando Telles, da Mecânica Antares, porém, existem mitos em torno do assunto. Ele diz que os riscos de danos são maiores nos carros que rodam pouco, justamente porque renovam menos o combustível dentro do veículo.
Enquanto os carros flex se adaptam sem problemas a qualquer mistura, nos modelos movidos exclusivamente à gasolina ou com carburador, a ausência de um tratamento contra corrosão faz com que os componentes sejam mais afetados ao longo do tempo.
Eles aumentam mais o consumo de combustível, e as peças que não têm proteção contra corrosão vão sofrer mais. Mas os carros de 2010 em diante, por exemplo, já se adaptam melhor. Podem render um pouco menos, devido ao poder calórico menor que o da gasolina. Em consequência, vão consumir mais.
Já para Carlos Ruschel, da Stock Car Service, em Cachoeirinha, o combustível com mistura gera impactos em todos os modelos, flex ou não. Isso porque, além de elevar o consumo, as peças não são preparadas para tal, e por isso vão oxidar com o tempo.
— Qualquer peça metálica que tiver contato com o combustível vai ter uma oxidação. Mais por causa da água que está na composição do que pelo álcool em si, porque muda o tratamento químico na peça metálica. Quanto mais anidro eu tenho, mais água tenho também — diz Carlos Ruschel.
Mais manutenção e consumo de combustível
Alguns mecânicos relatam que aumentaram as demandas por reparos de problemas desse tipo nos últimos anos. Na mesma linha, o presidente do sindicato que representa os postos de combustíveis no RS (SULPETRO), Fabricio Severo Braz, comenta que a frequência da manutenção também aumenta nos carros que não são flex.
— Temos muitos carros ainda movidos somente à gasolina. Esses veículos acabam precisando de maior manutenção. O anidro misturado na gasolina acaba ressecando algumas peças. Isso faz com que os carros às vezes tenham mais manutenção em injeção eletrônica e peças que envolvem o motor — avalia o dirigente.
Além dos danos mecânicos, os motoristas também relatam aumento no consumo de combustível a partir da mistura maior. Embora uma das expectativas com a adição de etanol seja baratear o custo da gasolina nas bombas, os motoristas tendem a abastecer mais, devido à menor densidade energética do álcool. Para quem faz longos trajetos ou roda o dia inteiro, como os carros utilizados em transporte por aplicativos, a opção pode não compensar no bolso.
“Experiência centenária nos autoriza”
Antes da atual mistura, o governo já havia ampliado, em agosto de 2025, o percentual de etanol de 27% para 30% na gasolina. O Brasil é o país que utiliza o maior percentual de mistura no mundo, e a tendência é seguir aumentando, conforme expandir a sua produção do biocombustível a partir de matérias-primas agrícolas.
Para o especialista em combustíveis e economista-chefe da consultoria ES Petro, Edson Silva, a trajetória brasileira permite confiar no respaldo técnico da adição. Ele diz que seria um “tiro no pé” promover as elevações de percentual sem o aval das montadoras, já que o dano no mercado seria enorme.
— Temos uma experiência centenária de adição de etanol à gasolina. Isso é respeitável. Começamos com 5% em 1931 e chegamos agora a 32%. Nossa trajetória centenária nos autoriza a acreditar que estamos dando um passo importante na transição energética e na descarbonização da matriz veicular — diz Edson Silva.
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