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Quase metade dos brasileiros recorre ao crédito para manter padrão de vida
Pesquisa aponta aumento da dependência de empréstimos e parcelamentos para cobrir despesas; especialistas alertam para o risco do endividamento
30/07/2026 11h05
Por: Andre Eberhardt Fonte: Jornal Província com informações GZH
Especialistas reforçam a importância do planejamento financeiro para evitar que contas virem bola de neve. (Foto: Mateus Bruxel/Agencia RBS)

Consolidado como principal modalidade financeira entre os brasileiros, o crédito vem ganhando espaço nas compras essenciais do dia a dia. O recurso é usado com frequência por 57% da população, enquanto 48% já o veem como indispensável para manter o padrão de vida.

Os dados são de estudo inédito da Serasa, o Mapa do Crédito, que mostra como os consumidores se relacionam com a modalidade de pagamentos.

Conforme a pesquisa, 119 milhões de brasileiros recorrem a alguma modalidade de crédito, sendo o cartão a mais comum entre elas, adotado por 77%. Enquanto o cartão socorre nas despesas do dia a dia, pela sua possibilidade de parcelamento, o empréstimo é mais utilizado para reorganização financeira e quitação de dívidas em atraso. Já o consignado costumar ir para dívidas mais longas, como os financiamentos de carro ou imóveis.


Fonte: Serasa

Para a especialista em Educação Financeira da Serasa Aline Vieira, ainda que o crédito traga facilidades para o planejamento financeiro, o seu uso indiscriminado para compras essenciais acende um alerta aos consumidores. Quando não bem administrado, pode virar uma bola de neve e um convite à inadimplência.

Não à toa, 55% dos ouvidos na pesquisa se arrependeram de ter contratado crédito em algum momento. O maior erro é não considerar as taxas que vêm com ele. Para 37% dos ouvidos, o juro encontrado foi mais alto do que se esperava, enquanto 29% afirmaram que o valor da parcela teve impacto maior do que o previsto no mês.

Ainda assim, a taxa de juros é o fator mais observado na hora de contratar crédito, citada por 43% dos entrevistados, um sinal de que o problema não é falta de atenção, mas dificuldade em prever o impacto real da dívida no bolso ao longo do tempo.

— O crédito precisa funcionar a favor do consumidor. Ele não pode ser visto como uma extensão da renda, nem como um complemento. Ele está ali como um apoio que depois virá com a fatura de pagamento e juros em cima. Se o consumidor atrasa a parcela, pode ser muito pior para o bolso dele do que se não tivesse tomado o crédito — alerta a consultora da Serasa.

Para a especialista, a primeira dica é entender as próprias contas e fazer um raio X das finanças e da necessidade real de tomar crédito. Depois, conhecer quais são as modalidades e quais os custos envolvidos mensalmente além dos gastos essenciais.

— Vimos na pesquisa que o planejamento faria diferença, sim, na hora de tomar um crédito. O planejamento vem como pilar antes, durante e depois para a tomada — reforça Aline.

Quase a totalidade dos entrevistados (97%), disseram considerar importante aprender mais sobre crédito. Outros 69% disseram querer aprender a usá-lo de forma consciente, revelando interesse em ter uma vida financeira mais saudável.

Cuidados com a “gameficação”

Um dos motivos apontados pelos especialistas para a maior aderência ao crédito no dia a dia das pessoas está nas vantagens ao seu uso oferecidas pelas operadoras. Acúmulo de pontos, garantia de milhas e cashbacks estão entre as estratégias para fidelizar o consumo via crédito, inclusive para compras simples do cotidiano.

O recurso, no entanto, precisa ser utilizado com responsabilidade. Jeff Patzlaff, planejador financeiro e especialista em investimentos e finanças pessoais, chama atenção para uma “gameficação” das experiências de compras. Quando as vantagens e promoções são oferecidas, muitos consumidores compram por impulso.

— Existe um apelo muito forte, não só de milhas ou de gasto mínimo para não pagar a anuidade do cartão, mas de viés comportamental que faça com que se gaste mais. Um deles é diminuir as etapas de compra para incentivar o consumo. Quanto menos etapas racionais no processo, mais o consumidor gasta — alerta o consultor.

Em muitos sites de compra online, por exemplo, os dados do cartão já estão automaticamente preenchidos. Basta avançar e a compra está feita. A funcionalidade inibe a racionalidade do consumo, extrapolando a necessidade do gasto.

Patzlaff alerta para uma disseminação do uso do crédito sem uma conscientização a respeito, seja pelo acesso facilitado ou pelas vantagens que ele oferece. Se antes a modalidade funcionava para aquisição de bens, hoje ela está nas compras diárias, justamente devido ao orçamento apertado.

— Em cima disso, o brasileiro acaba gastando muito mais do que deveria. Depois ele vê como paga. Vemos um movimento muito forte de falta de responsabilidade de quem usa o crédito — diz o especialista.

Os educadores financeiros reforçam algumas dicas para melhor aproveitar o recurso. A principal delas é entender a realidade de gastos, ou seja, ter um panorama real do que entra e do que sai de dinheiro mensalmente. Depois, é preciso pensar se as formas facilitadas de pagamento fazem sentido.

Os principais erros ao usar o crédito

  • Ter a falsa percepção de que o crédito é uma extensão da renda
  • Ignorar os juros e demais taxas contratadas
  • Deixar a dívida aumentar e cair na inadimplência

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