Especiais JALMO
Heróis da Lama
Nossos primeiros taxistas
30/07/2026 10h04
Por: Jalmo Fornari

Nas décadas de 1970 e 1980, ser motorista de praça — ou taxista, como a profissão passou a ser conhecida — era uma das ocupações mais difíceis da região.

A explicação era simples: praticamente não existiam estradas asfaltadas e eram raros os trechos calçados com pedras. No inverno, quando a chuva castigava a região, a lama transformava qualquer viagem numa aventura. Havia dias em que determinados trechos se tornavam simplesmente intransitáveis.

Os moradores do interior quase não possuíam automóveis. Ter um carro era privilégio de poucos, normalmente uma Rural Willys ou um Jeep. A grande maioria dependia das carroças que, num ritmo lento e com uma paciência quase bíblica, levavam as famílias até a cidade para comprar alimentos, remédios e outros mantimentos.

Nesse cenário, os taxistas eram verdadeiros heróis. Talvez fossem os cidadãos mais conhecidos da pequena Tenente Portela. Eram motoristas, socorristas, mensageiros e, muitas vezes, a única esperança de quem precisava chegar rapidamente à cidade ou retornar ao interior.

Havia sempre dois pontos de táxi em funcionamento: o da rodoviária e o do hospital. Este último era fundamental. Cabia aos motoristas buscar doentes nos mais distantes rincões do enorme município de Tenente Portela, muito antes da emancipação da Gaúcha, da Barra e  de Derrubadas. Quando chovia... era um verdadeiro inferno.

Entre tantos motoristas conhecidos estavam seu Getúlio, Danski, Carloman, seu Pedro e um personagem inesquecível: seu Sholá.

Seu Sholá era facilmente reconhecido. Vestia-se sempre com elegância e jamais dispensava o inseparável boné de chofer de praça, daqueles típicos das décadas de 1940 e 1950. Enquanto alguns colegas enfrentavam a lama em Jeeps e Rurais Willys com tração nas quatro rodas, ele desfilava num belíssimo Aero Willys 1963.

Naturalmente, o Aero Willys não era exatamente um especialista em barro. Por isso, seu Sholá era escalado principalmente para as viagens mais longas, nas quais os passageiros valorizavam um pouco mais de conforto. Já os colegas dos Jeeps encaravam os atoleiros. E não era raro uma corrida terminar com cavalos, bois ou juntas de animais puxando o carro para fora de uma valeta.

Eram, definitivamente, tempos heroicos.

Mas a história do táxi em Tenente Portela começou bem antes.

O primeiro taxista da cidade foi seu Humberto Schio, no início da década de 1950. Seu veículo era um Ford 1929, muito mais apropriado para viagens longas do que para enfrentar as estradas quase intransponíveis do interior.

Ele mesmo contava uma de suas maiores aventuras.

Certa vez foi contratado para levar um paciente com transtornos mentais até o Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre. O problema era que, a cada parada para abastecer, verificar o carro ou simplesmente descansar, o passageiro aproveitava para fugir estrada afora.

Lá ia seu Humberto correndo atrás dele, deixando o velho Ford funcionando esperando pacientemente no acostamento.

Anos depois, outro episódio renderia uma história ainda mais divertida.

Já bastante idoso, seu Sholá começou a sofrer dos inevitáveis lapsos de memória.

Um dia levou o Aero Willys à oficina para consertar uma roda. O mecânico explicou que seria necessário comprar um retentor.

Seu Sholá foi até o posto do Elias, onde havia telefone, para ligar à loja de peças. Quando o vendedor atendeu, deu um branco.

Por mais que se esforçasse, não conseguia lembrar o nome da peça.

Mas desistir nunca foi seu forte.

Depois de alguns segundos de silêncio, perguntou:

— Meu amigo, me faça um favor. Como é mesmo o nome daquele homem que fica de braços abertos em cima do morro, lá no Rio de Janeiro?

Do outro lado da linha veio a resposta imediata:

— O Cristo Redentor?

Seu Sholá abriu um sorriso.

— Isso! Redentor! O senhor tem o redentor traseiro da roda do Aero Willys?

Do outro lado da linha houve um breve silêncio.

Então veio a correção, acompanhada de uma boa risada:

— Retentor, seu Sholá... retentor! Temos, sim!

Bons tempos.

Tempos de lama, de estradas impossíveis, de carros valentes e de homens ainda mais valentes.

Tempos em que os taxistas eram muito mais do que motoristas: eram os heróis silenciosos de uma região inteira.