Hoje pela manhã, ao acordar, fiz o que quase todo mundo faz antes mesmo de colocar os pés no chão: peguei o celular para verificar as mensagens.
Entre elas, havia uma gravação do Gringo Locatelli, que morou durante muitos anos em Tenente Portela e mantém por aqui suas raízes, amizades e lembranças. A mensagem fora enviada às três e meia da madrugada — ô sujeito insone! — e relatava a exagerada precipitação de chuva na velha Palmeira das Missões.
— Choveu, até agora, 180 milímetros — disse ele na gravação.
Como se nem ele próprio acreditasse no número, repetiu:
— Cento e oitenta milímetros! “Ermos” de água!
Opa! “Ermos”?
Havia seguramente mais de meio século que eu não escutava aquela expressão usada dessa maneira.
Na minha infância, porém, ela era corriqueira. No posto de combustíveis de meu pai, eu costumava ficar por perto, curiando a conversa dos clientes, especialmente dos grupos de motoristas de caminhão. Eles desfilavam narrativas sobre suas viagens, dificuldades e proezas — algumas verdadeiras, outras certamente aumentadas pela imaginação e pelo prazer de contar uma boa história.
Naquelas conversas, “ermos” aparecia com frequência.
— Tu nem sabe, mas era “ermos” de barro naquela estrada!
Ou então:
— A cidade onde eu tinha de descarregar ficava “ermos” de longe!
E assim por diante.
Para mim, naquela época, “ermos” significava alguma coisa enorme, distante, desmedida, quase impossível de calcular. Era mais do que muito. Era uma quantidade tão grande que dispensava números e explicações.
Mais tarde, com a leitura dos primeiros livros, a escola e a convivência com outras rodas de conversa, fui descobrindo que a palavra “ermo” estava normalmente associada a um lugar afastado, desabitado e solitário. Aos poucos, aquela outra utilização, tão comum entre os caminhoneiros e moradores de minha infância, foi desaparecendo do meu vocabulário.
Nunca mais a ouvira naquele sentido.
Até que, nesta manhã, o Gringo ressuscitou a palavra no meio de uma chuva de 180 milímetros.
Existem palavras que entram na moda, são repetidas por todo mundo durante algum tempo e depois desaparecem. Outras pertencem a uma região, a uma geração ou a determinado grupo de pessoas. Permanecem vivas dentro de certos limites geográficos e afetivos, até que as novas gerações deixam de utilizá-las e as antigas acabam se adaptando a outras formas de expressão.
As palavras também envelhecem.
Algumas desaparecem lentamente, sem despedida. Não morrem de uma hora para outra. Apenas deixam de frequentar as conversas, os balcões, os postos de combustíveis, as cozinhas e as rodas de amigos. Ficam guardadas em algum lugar da memória, esperando que uma voz conhecida volte a pronunciá-las.
O “ermos” do meu amigo me levou imediatamente à infância. Trouxe de volta o posto de meu pai, o cheiro de combustível, o barulho dos caminhões chegando e aqueles homens contando aventuras de estradas que pareciam não ter fim.
Perguntei às pessoas da minha equipe se alguém já havia escutado a palavra “ermos” utilizada como sinônimo de grande quantidade ou de distância imensurável. Ninguém conhecia aquele emprego. O que chegou mais perto associou o termo à solidão de um lugar abandonado.
E estava correto, naturalmente.
Mas aquele não era o “ermos” dos tempos de minha infância na pequena Tenente Portela. O nosso “ermos” não significava solidão. Significava exagero, imensidão e grandeza. Era “ermos” de barro, “ermos” de longe, “ermos” de chuva e até “ermos” de dificuldades.
Uma única palavra, pronunciada durante a madrugada, foi capaz de atravessar mais de cinquenta anos e devolver cenas que eu imaginava esquecidas.
A chuva pode até ter sido de 180 milímetros.
Mas o que caiu sobre mim, naquela manhã, foram “ermos” de lembranças.