Era um dia de chuva. Um dia frio e chuvoso como tantos outros que se acumulam em semanas inteiras aqui na minha terra.
Levantei cedo e saí de casa para dar aquela volta pelas ruas ainda envolvidas pelo nevoeiro da manhã. Circular pelas poucas ruas da cidade é um costume que não sei exatamente como adquiri, mas que repito há anos — há muitos anos.
Caso me perguntassem, em troca de um grande prêmio, quando comecei com essa mania, certamente perderia. Jamais saberia dizer desde quando saio de casa pela manhã, percorro o centro, observo as vitrines fechadas, os primeiros carros e as pessoas apressadas, antes de finalmente chegar ao escritório.
Naquela manhã foi assim.
Ou melhor, quase assim.
Havia alguma coisa diferente. Não saberia explicar o quê. As ruas pareciam outras. Os carros — poucos, é verdade — também eram diferentes. Até as pessoas, agasalhadas e encolhidas sob guarda-chuvas, pareciam desconhecidas.
Continuei dirigindo devagar, tentando encontrar alguma referência. Por alguns instantes, tive a estranha sensação de estar em uma terra distante, embora as construções, as esquinas e os telhados ainda lembrassem a minha pequena cidade.
Era como se o lugar fosse o mesmo, mas já não me pertencesse.
Ou, talvez, como se eu não pertencesse mais a ele.
A sensação tornou-se tão intensa que quase entrei em pânico.
— Será que ainda estou dormindo? — perguntei em voz alta. — Estarei sonhando?
Tentei me beliscar. Apertei com força o dedo maior da mão direita e, para meu espanto, foi como se tocasse apenas o ar.
Não havia carne.
Não havia osso.
Não havia matéria.
Um pavor frio percorreu aquilo que deveria ser meu corpo.
Foi então que reconheci um dos transeuntes.
Era Miguel, filho de um antigo vizinho. Não havia como me enganar. O nariz um pouco torto e um dos braços paralisados não deixavam dúvidas.
Era ele.
Contudo, Miguel estava velho. Muito velho. Seus cabelos eram brancos, o rosto coberto de rugas e os passos, antes rápidos, agora vacilavam sobre a calçada molhada.
Quanto tempo teria passado?
Trinta anos?
Talvez mais.
E eu? Se aquele era realmente Miguel, que idade deveria ter?
Oitenta anos? Noventa?
Procurei meu rosto no espelho retrovisor.
A princípio, vi apenas uma sombra. Depois, lentamente, surgiu a imagem de um homem envelhecido. Os olhos fundos, os cabelos quase inexistentes e a pele marcada pelo tempo. Reconheci vagamente alguns traços, mas não tive certeza de que aquele rosto fosse meu.
Enquanto eu o observava, a imagem começou a desaparecer.
Primeiro os olhos.
Depois a boca.
Em seguida, todo o rosto foi se dissipando, como o nevoeiro que se desfaz quando o sol aparece.
Dissipando...
Dissipando...
Dissipando...
De repente, tudo sumiu.
A cidade, os carros, os transeuntes, o velho Miguel, o espelho e até mesmo a chuva.
Restou apenas uma memória esvoaçante, dessas que não sabemos se pertencem ao passado, ao futuro ou a um sonho que esquecemos de terminar.
Desde aquela manhã, continuo circulando pelas ruas antes de chegar ao escritório.
Mas agora observo com mais cuidado os rostos que encontro.
Tenho medo de que, algum dia, todos me sejam novamente desconhecidos.
Ou, pior ainda, que eles me reconheçam — e eu já não esteja mais ali.