O ÚLTIMO LIVRO DO ALCIDES
Nos anos cinquenta, recém saído da adolescência, Alcides conseguiu um emprego de enfermeiro no pequeno hospital da vila — um precário prédio de madeira coberto com tabuinhas.
O único médico não dava conta das dezenas de casos que chegavam diariamente ao nosocômio, e o aprendiz de enfermeiro era peça-chave para trocas de curativos, partos feitos às pressas e outras emergências.
Falastrão, o Alcides se gabava frente aos amigos na Vila:
— “Só não sou médico como o Dr. Ferlauto porque me falta o último livro!!!”
Foi aí que entrou em cena a turma dos Carunchos — dois irmãos, o Peri e o Neneco — que decidiram pregar uma peça no “quase médico”. Vestiram o mais gordinho do grupo com roupas femininas, deitaram-no na cama do velho Hotel Bighellini e chamaram o Alcides, dizendo tratar-se de um parto de emergência.
No lusco-fusco do quarto, iluminado apenas por uma vela tosca (não havia energia elétrica na época), Alcides entrou em modo profissional. Esvaziou o ambiente, lavou as mãos numa bacia d’água e iniciou os trabalhos.
Quinze minutos depois , com o ar de quem sabia o que estava fazendo, o Alcides avisou a turma que quase não conseguia conter o riso do outro lado da porta:
— Fiquem tranquilos! Já consegui pegar na perninha do neném!
A gargalhada foi geral. A turma invadiu o quarto, e a gozação durou semanas.
Terminou ali a história do "último livro".