O homem acusado de matar a própria filha, uma bebê de um ano e nove meses, foi condenado a 71 anos de prisão em regime fechado após júri popular realizado na última sexta-feira (10), em Ponte Serrada, no Oeste de Santa Catarina.
Após mais de 13 horas de julgamento, o Conselho de Sentença acatou integralmente a denúncia do MPSC (Ministério Público de Santa Catarina) e condenou o réu por três crimes: feminicídio, sequestro qualificado e ocultação de cadáver.
Somadas, as penas chegam a 71 anos de reclusão, além do pagamento de 300 dias-multa. A maior parte da condenação, 60 anos, refere-se ao feminicídio, agravado pelo fato de a vítima ser menor de 14 anos e pela forma como o crime foi cometido, com dissimulação e sem chance de defesa.
Os jurados também reconheceram a qualificadora no crime de sequestro, destacando o sofrimento imposto à criança, que foi levada pelo pai por uma área de mata antes de ser morta.
De acordo com o Ministério Público, o crime aconteceu em 25 de maio de 2025, após uma discussão entre o casal durante uma visita a familiares no interior de Abelardo Luz. Na ocasião, a mãe da criança manifestou o desejo de deixar o relacionamento.
Aproveitando-se da situação, o homem pegou a menina no colo sob o pretexto de brincar e seguiu em direção a uma área de mata. Ele atravessou o rio Chapecozinho, que divide Abelardo Luz e Vargeão, e percorreu um trecho de difícil acesso até matar a criança por asfixia com uma corda.
Horas depois, o próprio autor entrou em contato com familiares e confessou o crime. Em uma ligação gravada na época, um parente tentou impedir a ação: “Não faz isso, pelo amor de Deus”. O homem, no entanto, responde: “Não tem mais volta, agora já foi. Vou ficar preso ‘uns par de ano’”. Em outro momento, reforça: “Já está feito”.
Ele se entregou à polícia ainda no mesmo dia. O corpo da menina foi localizado na manhã seguinte, após buscas que mobilizaram cerca de 80 agentes. Próximo ao local, foram encontrados um pote de iogurte e um recipiente de lanche. Após a prisão, o condenado foi transferido de Abelardo Luz para Xanxerê sob escolta das forças de segurança.
Durante o julgamento, familiares da vítima acompanharam a sessão com camisetas estampadas com a foto da criança e pedidos de justiça.
Após a sentença, a mãe da menina afirmou que o resultado traz um sentimento de alívio. “O sentimento é de alívio e emoção. Agora eu vou conseguir voltar a viver, com muitas aspas, porque eu estava esperando somente esse momento de ver a justiça sendo feita pela minha filha. Gratidão aos Promotores de Justiça e à toda Comarca de Ponte Serrada. Não esperava resultado diferente além de um júri justo. Pude assistir e participar. Agora sinto que pode ser que eu consiga voltar a trabalhar e a ter uma vida digna”, declarou.
O Ministério Público destacou a gravidade do caso e a frieza do réu. Para a acusação, o crime evidenciou desprezo pela condição da vítima e não pode ser confundido com qualquer vínculo afetivo.
A Justiça determinou a manutenção da prisão preventiva, o que impede o réu de recorrer em liberdade. Ele começará a cumprir a pena imediatamente, conforme entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre decisões do Tribunal do Júri.
O caso já foi julgado sob as regras da nova Lei do Feminicídio (Lei 14.994/2024), que transformou o crime em um tipo penal autônomo, com penas mais severas. No julgamento, a legislação contribuiu para o aumento da pena, especialmente por se tratar de uma vítima menor de 14 anos, o que elevou a condenação final.
Momentos antes do julgamento, realizado na sexta-feira, uma das filhas do homem condenado falou à imprensa e saiu em defesa do pai, o que provocou ampla repercussão nas redes sociais.
Na entrevista, ela afirmou que, apesar da gravidade do crime, o pai não deve ser reduzido à imagem de um “monstro”. “O que ele fez, ele tem que pagar. Mas ele é um ser humano, tem sentimentos, tem coração. Nós, enquanto família, não estamos aqui pra apoiar o crime, mas pra apoiar a pessoa que ele é”, disse.
A jovem também destacou a relação que manteve com o pai ao longo da vida, ressaltando que foi criada com afeto. “Eu tenho ele no meu coração como meu pai, que me criou, que me cuidou, que sempre me amou. Isso é só um recorte da vida dele. Ele vai pagar pelo que fez, mas acima de tudo ele é o meu pai”, afirmou.
(Foto: Divulgação/Corpo de Bombeiros/ND Mais)
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