O início de outubro de 1924 foi marcado por intensa agitação política em todo o Brasil. Espalhavam-se notícias de que o movimento revolucionário, liderado pelo general reformado Isidoro Dias Lopes e por jovens oficiais como Miguel Costa, Juarez Távora e Joaquim Távora, receberia apoio de outras unidades militares do país. O clima era de expectativa e tensão.
Não apenas militares, mas muitos civis — especialmente os mais jovens — simpatizavam com a causa. O chamado tenentismo tinha como objetivo derrubar o governo do presidente Artur Bernardes e promover reformas políticas e sociais. Mais tarde, Luiz Carlos Prestes resumiria os ideais do movimento: “Pela liberdade de imprensa, voto secreto, contra a corrupção...” E ainda completaria: “Mas o fundamental era contra a candidatura Bernardes, e depois que ele tomou posse, era contra ele mesmo.”
Na cidade de Santo Ângelo, que na época tinha cerca de 33 mil habitantes, jovens aguardavam com entusiasmo a possibilidade de adesão ao levante para se unirem à luta. Um desses jovens era Pedro Bins, conhecido na comunidade por seu envolvimento com práticas de cura e orientação espiritual. Era visto pelos líderes locais como um aprendiz de curandeiro e alguém comprometido com um futuro melhor para o Brasil.
Pedro, jovem de baixa estatura e físico franzino, não hesitou: ao saber do levante, dirigiu-se ao quartel e apresentou-se como voluntário.
Foi designado para uma missão ousada e decisiva. Luiz Carlos Prestes, ainda com patente inferior ao comandante local, optou por não dar a ordem direta de prisão do superior hierárquico, temendo que os soldados se voltassem contra ele. Como declarou em entrevista posterior:
“Se houvesse qualquer coisa diante dos soldados, eles ficariam com o major e não comigo. Quanto a isso, eu não tinha ilusões.”
A solução encontrada foi organizar um grupo de civis armados para realizar a prisão. Entre eles estava Pedro Bins. O próprio Prestes recorda:
“Começou a escurecer. O comandante morava numa casa de esquina. Eu tinha o Pedro Bins, um curandeiro aqui de Santo Ângelo, um homem de muita firmeza. Gostava dele pela determinação. Era baixinho, mirrado... Dei a ele o comando da missão.”
A ação parecia quase cômica: Pedro deveria bater à porta da casa do comandante e comunicá-lo de que estava preso. Os oficiais observavam de longe, a cerca de 400 ou 500 metros, agrupados e tensos.
Pedro aproximou-se e bateu com vigor na porta. O comandante Eduardo veio atender e imediatamente iniciou uma discussão. Gritava que faria escândalo, que prenderia todos. Pedro então perdeu a cerimônia e o empurrou, fazendo-o recuar cambaleante para dentro de casa. Um lenço vermelho serviu para estancar o fio de sangue que escorria de seu nariz. Diante da inferioridade numérica e do constrangimento, o comandante se rendeu e permaneceu detido em sua residência, sob custódia dos revolucionários.
Esse episódio marcou a adesão do Primeiro Batalhão Ferroviário ao movimento revolucionário, e Pedro Bins foi nomeado Tenente revolucionário.
Sua participação nos eventos seguintes foi intensa. Após vitórias em batalhas como a da Ramada, os revoltosos iniciaram a marcha para o sul do país, com o objetivo de unir-se às forças paulistas acampadas em Foz do Iguaçu.
Depois de quase uma semana de acampamento na localidade de Pari — onde hoje está o município de Tenente Portela —, Pedro Bins e o tenente Paiva foram encarregados de liderar um pelotão de retaguarda. A missão era resistir a possíveis ataques das forças legalistas que perseguiam a Coluna.
No dia 24 de janeiro de 1925, quando se preparavam para atravessar a fronteira do Rio Grande do Sul, o grupo foi surpreendido e massacrado. Bins, Paiva, Santos e outros combatentes foram mortos. Seus corpos foram enterrados em uma cova coletiva às margens do Rio Pardo.
Assim terminou a curta e corajosa vida de Pedro Bins, um jovem que, inspirado pelo idealismo de outros tenentes, acreditou que podia contribuir para a construção de um país mais justo. Seu nome teria sido esquecido se não fosse por um gesto simbólico de Osvaldo Cordeiro de Farias, também integrante da Coluna Prestes, que decidiu homenageá-lo. Assim, deu-se o nome de Tenente Portela a uma praça em um distrito próximo de Três Passos — nome que mais tarde batizaria a cidade que ali se formou.
Exatamente cem anos após sua morte, a memória de Pedro Bins voltou a correr risco. Um grupo de vereadores do município que leva seu nome propôs a renomeação da praça que ainda guardava a lembrança do jovem tenente. Foi necessário um movimento de resistência da comunidade local para impedir esse apagamento. Tentava-se soterrar para sempre a única referência histórica àquele que, com coragem e senso de dever, deu a própria vida por um ideal.