Eu devia ter uns 13 anos e já trabalhava. Por um curto período, meu pai conseguiu um emprego para mim como vendedor na Casa Paulista, de uma família de libaneses que possuía duas lojas na cidade. Elas vendiam produtos comprados, em sua maioria, na Rua 25 de Março, em São Paulo.
Para ir trabalhar, eu seguia pela Rua Redenção que, embora fosse uma das mais centrais da cidade, apresentava buracos e irregularidades na pavimentação de pedras toscas. Nos dias de chuva, transformava-se em um verdadeiro lago. Às vezes, quando eu estava quase chegando à loja, via os veículos passarem por aquelas poças, espirrando água para todos os lados, sujando prédios, carros e, principalmente, os pedestres. Era um transtorno que não recebia qualquer atenção do poder público.
Na época, a cidade não tinha um prefeito eleito, mas sim um interventor nomeado pelo governo militar. Ele não devia o cargo ao povo, mas a favores políticos, afinal, vivíamos o famoso período em que cidades de fronteira eram tratadas como “ÁREAS DE SEGURANÇA NACIONAL”. Como não havia eleição e, portanto, nenhum compromisso com o eleitorado, as reclamações dos moradores eram solenemente ignoradas.
Um belo dia, tive uma ideia para tentar chamar a atenção dos “home” para aquela barbaridade. Era uma segunda-feira chuvosa. Como no fim de semana o tempo já prometia uma semana inteira de chuva, tive tempo para preparar minha “arte”. Peguei um papelão — daqueles de caixa de mercadoria — e, com tinta têmpera, escrevi um cartaz bem chamativo. Com a maior cara de pau, afixei-o junto ao meio-fio, em uma das maiores poças d’água, bem na curva do Bar da Dona Amada. O cartaz dizia:
“LAGOA MUNICIPAL”
É expressamente proibido pescar sem ordem do senhor Prefeito.
A história “viralizou” naquela manhã e virou motivo de gozação pela cidade. Tinha gente que foi só para ver a placa, postando-se do outro lado da rua, sob o guarda-chuva, em frente à loja do Darcy. Claro que a placa não durou uma hora no local. Um conhecido funcionário público, homem de confiança do prefeito-interventor, a retirou e jogou na parte traseira do jipe.
Pouquíssimas pessoas sabiam que o autor era eu — e talvez, por concordarem com a crítica, nunca me denunciaram. Mas o protesto surtiu efeito, e como surtiu! No primeiro dia de sol, o prefeito-interventor, acredito que contrariado e bastante irritado, mandou tapar os buracos e reformar aquele trecho da rua. Sem saber quem havia sido o autor da provocação, só faltou mandar chamar os pais do "guri" para descarregar sua indignação.
Anos mais tarde, aquele menino foi eleito vereador por várias legislaturas no município e, como jornalista, marcou época na região, denunciando irregularidades e desmandos.