O movimento na borracharia do Paludo, naquela manhã, estava de dar nó em pneu novo. Época de safra, sabe como é — todo mundo correndo atrás das máquinas para não perder os dias bons de colheita e transporte.
Além da correria, a borracharia funcionava como um autêntico bar de beira de estrada, ponto de encontro oficial dos desocupados profissionais. Sempre tinha um grupo de gente tomando chimarrão e filosofando sobre tudo: do tempo à situação da lavoura, passando — é claro — pelo futebol e pela política local.
Entre os frequentadores mais assíduos estava o nosso amigo Cirilo. Torcedor fervoroso do glorioso Miraguaí, ele fazia da borracharia seu QG — afinal, os donos, Paludo e Celito, eram da diretoria do time da baixada e sempre tinham uma fofoca fresca pra contar.
Foi então que, entre pneus de trator e dois ou três caminhões empacados no pátio, estacionou nada menos que o Opala oficial do prefeito de Redentora. Na época, o homem era figurinha fácil nas páginas policiais, acusado de uns desvios que nunca chegaram a ser devidamente esclarecidos — aquelas investigações que terminam no famoso "fica por isso mesmo".
Quem dirigia o carro era o Giovanni, um piá ainda, novo no ramo de motorista e já com funções de confiança.
O Cirilo, que não era exatamente um exemplo de discrição, captou o movimento e ficou de antena ligada. Largou o banco do chimarrão e foi dar uma conferida no Opala. Fez uma vistoria de corpo inteiro, caminhou em volta do carro com o olhar desconfiado e finalmente parou bem atrás, encarando a placa:
REDENTORA.
Levantou as sobrancelhas, caprichou numa careta de surpresa e decretou em voz alta:
— Redentora... hein! — balançou a cabeça com ares de profundo conhecedor do assunto, antes de soltar a sentença:
— Diz que o prefeito de lá roubou um monte!
Silêncio. Gelo geral.
Como o prefeito estava ali mesmo, ao lado do Giovanni, o Paludo se apressou em evitar um barraco: chegou no Cirilo e sussurrou num tom de quem já via advogado brotando do chão:
— Cala a boca, homem! O prefeito tá aqui! Se ele te ouve, vai te meter um processo!
Mas Cirilo, que quando errava a mão preferia dobrar a aposta, ergueu ainda mais a voz para que ninguém perdesse a correção:
— Roubou pouco! Devia era ter roubado muito mais! Muito mais!
E seguiu sua ronda em volta do Opala, como quem confere se os parafusos ainda estavam no lugar.