Nos anos 1940, meu avô paterno, que já havia tentado muitas formas de ganhar a vida fácil, decidiu diversificar novamente. Criou uma pequena fábrica de refrigerantes, mas seus guaranás tiveram vida efêmera. Depois, investiu na música — era divertido, mas não gerava recursos suficientes para sustentar seus sete filhos. Tentou também a lavoura e a carpintaria, até que surgiu uma nova oportunidade: comprar um ônibus.
O velho caminhão adaptado foi um marco nas ligações da nossa cidade, que na época ainda era distrito de Três Passos, com o resto da região. Bem pintado, o ônibus exibia seu trajeto, como um mapa estampado nas laterais. Com muita boa vontade, cabiam ali 16 passageiros.
Além de transportar pessoas, o ônibus também fazia as vezes de veículo de logística local. Levava algumas mercadorias, quando havia espaço, e trazia outras. O bagageiro ficava no teto, acessado por uma escada na parte traseira.
Certa tarde, daquelas frias e úmidas de junho, meu avô e seu companheiro de viagem, o motorista Schio, faziam o trajeto de Sarandi a Palmeira (hoje Palmeira das Missões) em um ritmo lento e sonolento, compatível com as limitações do veículo. Eram cerca de seis horas da tarde e a luz já definhava, abafada pela vegetação cerrada ao longo da estrada estreita e precária.
Foi então que o Nono avistou uma família abrigada sob uma enorme árvore na beira da estrada. Acenavam pedindo carona. Schio parou o ônibus, e o Nono, ao verificar que a lotação interna já estava esgotada, ficou penalizado com a situação: um casal e uma menina de uns 9 ou 10 anos. Sem espaço dentro, ofereceu-lhes um lugar no bagageiro, no teto do veículo — não era raro pessoas mais humildes viajarem ali quando não podiam esperar. A oferta foi prontamente aceita, e os novos passageiros subiram pela traseira.
A viagem seguiu. Alguns minutos depois, fumando seu palheiro em um canto da boca, Schio perguntou ao meu avô se ele havia avisado à família que, no teto, também seguia um caixão, encomendado por uma família de Portela, e um outro passageiro que aceitara fazer a viagem no improvisado espaço. Meu avô apenas respondeu:
— No te apoquente, eles se arranjam!
De fato, a família ficou encolhida e unida ao lado do caixão. Além dele, aparentemente, ninguém mais estava ali. Abraçados e assustados, encaravam a cena, agravada pela garoa fina e gelada que começava a cair. Os três olhavam para o caixão, imaginando se haveria mesmo alguém dentro. Naquele tempo, só caixão de rico tinha visor de vidro; era impossível saber.
Em dado momento, a chuva parou e o pai de família acendeu um cigarro. A cada tragada, o clarão breve iluminava o cenário, tornando tudo ainda mais lúgubre. Foi então que ouviram barulhos vindos de dentro do caixão — como se um corpo estivesse se ajeitando. A menina começou a chorar, e os três se abraçaram, apavorados.
Logo depois, notaram que a tampa do caixão começava a se mover. O homem arregalou os olhos, e a filha soluçava baixinho. Até que, de repente, um braço surgiu, esticando-se para fora, e uma voz perguntou:
— Tá chovendo ainda?
A família não esperou por uma segunda pergunta. Desceu desesperada pela traseira do ônibus em movimento e se embrenhou nos potreiros à margem da estrada.
Somente muito tempo depois descobriram que o "morto-vivo" era, na verdade, o passageiro que havia se abrigado dentro do caixão para escapar da chuva. Schio e o Nono só perceberam a ausência da família quando chegaram a Palmeira. O homem do caixão contou, candidamente, que não tinha feito nada demais — só tentava se proteger do frio e da chuva.