Meu avô, o Ulderico Borghetti, era um italiano raiz: de estatura baixa, magro e com um enorme nariz. Era o nosso "mau exemplo" na infância — assim, pelo menos, diziam as tias e a mamãe. Não sei se por costumes herdados da Itália ou por sua figura singular, mas o seu jeito de falar, misturando “talian” com português, sempre chamava minha atenção de neto curioso.
O vecchio não tinha uma profissão definida. Curtido pela vida e pela tarefa de criar mais de dez filhos, teve muitos endereços e a atividade mais marcante era sua exímia habilidade no trato com as parreiras. Bebedor de vinho, dedicava a mesma paixão ao cultivo das uvas. Esticava arames, pendurando enormes pedras nas extremidades para mantê-los alinhados. Em determinadas épocas, fazia a poda e amarrava os galhos. Nessas tarefas, eu adorava ajudá-lo, carregando braçadas de galhos de vime que ele, com uma arte toda própria, transformava em nós e amarras perfeitas. Eu tinha nove ou dez anos e seguia meu avô nesse trabalho sazonal.
Mamãe, que achava o próprio pai um mau exemplo, repetia sempre:
— Não dê bola para os palavrões que o nono diz! Ele é boca suja e vai acabar no inferno!
Claro que essa previsão era feita sem convicção alguma, e sem nenhum traço de desejo real.
O nono era engraçado. Adorava contar piadas — devia saber de cor o livro do Nanetto Pipetta, pois eram seus temas prediletos. As piadas, ou anedotas como ele chamava, às vezes eram interrompidas no meio por sonoras gargalhadas, quando o próprio narrador ria da sua história e dos seus personagens.
Além das anedotas, o velho Ulderico gostava de cantar. A filha herdou a voz afinada e ela aproveitou o dom para cantar louvores nas missas, a vida interira. O nono não: ele cantava as origens. Para os netos, quando pequenos, entoava a tradicional cantiga dos imigrantes italianos: “La Gigiota la ga un bambin... che belin”. Em momentos mais introspectivos, surgia uma “Santa Luzia”. Mas o que ele cantava com verdadeiro sentimento era "Mérica, Mérica, Mérica", relembrando a epopeia dos pais imigrantes que deixaram a Itália para construir uma nova vida na América.
Mas qual seria a má influência que mamãe e as tias tanto apontavam toda vez que o nono se aproximava dos netos? Sim, era sua naturalidade ao proferir aquilo que mamãe chamava de blasfêmias.
Lembro que, com mal seis anos de idade, fui até minha mãe e perguntei:
— Mamãe, o que é "porco Dio"?
Mamãe quase teve um surto. Levou-me até a bacia de lavar o rosto — daquelas que ficavam num canto da cozinha — e me fez lavar a boca várias vezes. Entre choros, sem entender o que acontecia, obedeci. Depois veio o interrogatório:
— Onde tu ouviu essa blasfêmia, meu filho?
Com a maior naturalidade, respondi que o nono repetia isso sempre que alguma coisa dava errado. Mamãe me fez rezar um Pai-Nosso e uns três Anjos da Guarda. Depois, chamou o próprio pai — meu nono — e despejou sobre ele uma saraivada de repreensões. Chegou a ameaçá-lo de mandá-lo para a casa de outra filha, caso continuasse ensinando esses “horrores” aos netos.
Mas o vovô era incurável. Agia com naturalidade. Passei a evitar comentar suas explosões em talian, para não despertar a ira da mamãe. Mas era a mesma coisa todo dia:
— Porca Pipa!
— Bruta Bèstia!
— Diàvolo cane!
— Porco Dindio! — esta última, uma forma "amenizada" que mamãe sugerira para que ele não ofendesse diretamente o Senhor da Criação.
— Porca Madonna!
E mais um corolário de expressões que hoje já não consigo lembrar.
O nono era assim: passava o dia cantando, contando anedotas, blasfemando... e à noite, em torno da mesa da família, era quem, ao lado de mamãe, puxava o terço para que ela descrevesse as estações dos mistérios: gozosos, dolorosos, gloriosos e os luminosos. Lembro que cada mistério tinha cinco estações, e mamãe as descrevia com tal emoção que nos comovia. Esses costumes, aos nove anos, acabaram me levando a ingressar no seminário dos Padres Servos da Caridade.
E o nono... Depois de uma noite com polenta brustolada, queijo e salame na chapa, um belo bicchiere di vino e a oração em família, no dia seguinte ele voltava a alegrar o mundo com suas lorotas repetidas, suas canções italianas e, claro, suas blasfêmias.
Cada vez mais velho e com suas manias, o nono passou a viver em revezamento entre os filhos e filhas. Enquanto viveu, morava ora em uma cidade, ora em outra, sendo alimentado e cuidado por filhos e netos.
Até que, num certo dia, mamãe chegou triste à cozinha, antes do almoço, e comunicou:
— Deus, aquele mesmo que vivia sendo ofendido pelo Ulderico, chamou o nono para a eternidade.