Então apague o lampião...
Seu Vitório nunca perdia a oportunidade de contar uma de suas histórias inusitadas. Os velórios, em especial, eram o lugar favorito para relatar seus muitos causos.
No velório de dona Preta, mãe do finado Livino, Vitório e mais dois funcionários da prefeitura — que haviam ajudado na transferência do corpo da finada — estavam mateando num dos cantos da sala, iluminada apenas pelas duas velas dispostas em volta do caixão e pela luz tênue de uma lamparina pendurada num dos esteios do rancho.
Como o ambiente estava em silêncio, Vitório começou mais um de seus causos. Era um daqueles do tempo da Coluna Prestes:
— Sabe, compadre Taborda, esse pessoal da Coluna Prestes deixou armas espalhadas por todo canto aqui na região! Eu mesmo, certo dia, estava pescando na barra do Turvo e tirei da rede uns dezoito mosquetões enferrujados...
Como o compadre nem resmungava, Vitório caprichava ainda mais na história.
— Pois é! Depois dos mosquetões, numa outra redada, peguei umas oito ou dez adagas...
O compadre só ouvia, sem esboçar nenhuma reação. Foi quando Vitório continuou o relato:
— Depois, numa das muitas redadas, pesquei junto um lampião!
O compadre seguia calado, e Vitório emendou:
— Aceso, é claro!
Foi o que bastou para o compadre protestar:
— Não minta, compadre Vitório! Aí já é demais!
— Tá certo, tá certo... Então pode apagar o lampião, compadre, que o resto da história é tudo verdade!