O Presidente (Do Jeito Dele)
Na Câmara Municipal da nossa pacata cidade, onde até os pombos da praça parecem saber quem votou em quem, havia um vereador que não era exatamente conhecido pelo dom da oratória. Dizia-se, inclusive, que certa vez confundiu “pronunciamento” com “prontuário” — mas isso pode ser fofoca da oposição.
Pois bem, por obra e graça de um acordo político que mais parecia escala de plantão, chegou a vez do nosso protagonista assumir a presidência da Casa. Era um rodízio previamente combinado entre os partidos da situação — ou, como dizem no boteco do Zé, “um revezamento entre compadres”.
O cargo vinha com um honesto acréscimo de 50% no salário, o que é, convenhamos, um desconforto financeiro que qualquer cristão estaria disposto a suportar. Diante dessa vantagem, o homem não pestanejou. Traquejo para a função? Não tinha. Mas vontade de receber a diferença no final do mês? Tinha até demais.
Como ninguém queria ver vexame no primeiro dia de gala, o secretário executivo da Câmara, homem prevenido e já acostumado a lidar com pepinos legislativos e gafes protocolares, preparou um roteiro completíssimo. Tipo passo-a-passo mesmo. Tipo “Cerimônia para Iniciantes”.
Chegado o grande dia — sessão solene em homenagem ao Município — o plenário estava lotado: alunos de escola, autoridades empacotadas de paletó e um ou outro curioso que apareceu achando que era sorteio de cesta básica.
O presidente subiu à tribuna, ajeitou a gravata (emprestada) e, com voz embargada de emoção e despreparo, começou a ler.
— Primeiro, bate a sineta três vezes...
E bateu.
— Em seguida, pede para tocar o Hino Nacional...
E pediu.
— Depois, diz: “Em nome de Deus, eu declaro aberta a sessão extraordinária”...
E declarou, orgulhoso como quem inaugura a própria calçada.
Tudo corria mais ou menos bem até que, sem perceber que estava lendo o roteiro e não o discurso em si, o nosso presidente seguiu firme:
— Depois, pede para o vereador secretário ler a ata de convocação...
Foi nesse ponto que o secretário, com olhos esbugalhados, tentou alertar. Tossiu, fez sinal, escreveu “PÁRA” em letras garrafais num bilhete. Mas o homem estava possuído pelo espírito da solenidade e seguiu:
— Agora, faz uma pausa para o público se acomodar melhor...
A essa altura, o público já não se acomodava — se sacudia. Risadinhas pipocavam, cotoveladas voavam, e até o padre, que tinha ido abençoar a cerimônia, disfarçou um sorrisinho cúmplice.
Vendo que a tragédia já era espetáculo, o secretário correu até a mesa presidencial como quem vai impedir que o ônibus da excursão caia ribanceira abaixo. Mas já era tarde. O estrago estava feito.
Foi então que o presidente, percebendo que algo estava “meio errado”, largou o roteiro com a dignidade de um ator que rasga o script no palco e bradou com a autoridade que só os teimosos têm:
— Assim não dá! Vamos fazer do meu jeito!
E, com um sonoro:
— Boa noite a todo o pessoal que se encontra aqui!
...tocou a sessão do jeito dele. Aos trancos, barrancos e piadas improvisadas. E sabe o que é pior? Ou melhor? Deu certo. Saiu melhor que o script.
Porque, no fim das contas, como se diz por aqui: quem sabe faz ao vivo — ou pelo menos tenta com convicção.