Política Compra de Votos
Homem teria comprado votos para candidato pouco conhecido para lucrar com apostas em Boa Vista das Missões; MPE pede cassação de vereador
Apuração aponta que Valtenir Bueno Dornelles teria investido mais de R$ 600 mil para garantir a eleição de Sérgio Bueno Rocha, que fez a maior votação da história da cidade para o cargo
06/05/2025 09h03 Atualizada há 1 ano
Por: Marcelino Antunes Fonte: GZH
Sérgio Bueno Rocha obteve 438 votos. (Foto: Reprodução / RBS TV)

Um suposto esquema de compra de votos com o objetivo de faturar em apostas é alvo de uma ação do Ministério Público, que tramita na Justiça Eleitoral. O caso teria acontecido em Boa Vista das Missões, no norte do Rio Grande do Sul.

O Ministério Público Eleitoral (MPE) entrou com ação na Justiça pedindo a cassação do registro de Sérgio Bueno Rocha, o Serginho, eleito pelo Partido Progressistas (PP), e a condenação de Valtenir Bueno Dornelles, conhecido na cidade como Anibal, e que teria orquestrado a candidatura com o objetivo de ganhar a aposta.

Sérgio obteve 438 votos — a maior votação da história da cidade para o cargo.

Na Câmara Municipal, Sérgio Bueno da Rocha negou as acusações ao ser abordado.

— Não confirmo essa compra de votos, fizemos política limpa — garantiu o vereador.

O PP informou que não tem acesso às informações nem ao processo. Por esses motivos, não vai se manifestar.

Já Dornelles foi procurado, mas não retornou os contatos até a mais recente atualização desta matéria.

O suposto esquema

O objetivo do esquema, segundo a denúncia, era apostar que um candidato considerado sem nenhuma chance venceria — e depois garantir a vitória dele comprando votos.

O caso foi relatado por Paulo Roberto Galvão Ignacio, ex-prefeito da cidade. Segundo ele, Anibal teria investido mais de R$ 600 mil na compra de votos para garantir a eleição do candidato — tudo como parte de um plano para ganhar dinheiro com apostas eleitorais.

—Ele já chegava direto: "Quanto você quer pelo teu voto?". Fechava negócio com a família inteira — relatou o ex-prefeito, que calcula em R$ 2 milhões o faturamento com a suposta fraude.

Moradores da cidade confirmaram que, em troca de votos, teriam recebido dinheiro, entregue por Anibal. Um deles, que não quis se identificar, revelou que toda a família teria vendido os votos por R$ 5 mil.

Em áudios obtidos pela reportagem, o próprio Anibal aparece cobrando o cumprimento do acordo: 

"Confirma o votinho lá para nós, tudo sabe né, que nós "combinemo"... Preciso de um votinho porque eu andei jogando".

Em 2024, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou uma resolução que explicita o ilícito eleitoral de prática de apostas — inclusive pela internet — cujo objeto envolva o resultado das eleições.

Fazer esse tipo de aposta de forma repetida, ainda mais se envolver promessas de dinheiro ou outras vantagens para eleitores, pode atrapalhar a eleição e influenciar o voto das pessoas. Isso é considerado uma prática ilegal e pode ser punida como abuso de poder econômico ou compra de votos, com base na Constituição e nas leis eleitorais.

Apostas

O aposentado Setembrino Lício de Oliveira, 77 anos, relata que investiu R$ 60 mil, o valor que havia ganhado arrendando a terra para plantar soja. Ele conta que apostou que um candidato tradicional, atual presidente da Câmara, faria mais votos que Serginho — e perdeu.

— Achei que ganhava fácil. O outro já era conhecido, o Serginho ninguém conhecia — afirmou Oliveira.

Outro morador, João Pedro Brizola Dorneles, diz que apostou R$ 300 mil que a soma de votos de três candidatos tradicionais venceria a de Serginho e um aliado. Também perdeu.