Especiais Jalmo Fornari
A caderneta do candidato
O que que eu faço Deputado?
13/12/2024 17h12 Atualizada há 2 anos
Por: Jalmo Fornari

Conta-se no folclore político da minha região que, lá pelos anos 80, quando o senhor Hilário concorreu à sua primeira eleição para Deputado Estadual, ele tinha um assessor fiel chamado Udo, que o acompanhava em todos os eventos. Onde o candidato estava, o Udo estava ao seu lado, assessorando. O Udo sempre carregava nas mãos uma cadernetinha de capa dura, azul, com espiral na borda. Nela, anotava todos os roteiros a serem seguidos e, em uma parte especial, registrava os pedidos feitos ao candidato pelos eleitores.
Naquele tempo, como, extraoficialmente, ainda ocorre hoje, o candidato político, ao pedir votos em uma comunidade, recebia inúmeros pedidos em troca. Eram solicitações de toda forma e ordem, que serviam como um "compromisso" entre o voto e a resposta do político, caso fosse eleito. Não raras vezes, os pedidos eram materiais e, por vezes, exigidos antes mesmo do pleito. No caso da caderneta do Udo, entretanto, eram registrados pedidos de providências políticas a serem executadas no futuro.
— Se for eleito, me ajude com uma bolsa de estudos! — pedia um eleitor ao Hilário, prometendo o seu voto, o da família e, em alguns casos, até os dos vizinhos.
— Anote aí, Udo! — dizia o candidato.
Zeloso, o Udo aproximava a caderneta do rosto e, com um lápis, anotava o pedido e o nome do solicitante. E assim seguia.
— A nossa sociedade de damas precisa de uma mesa de bolãozinho — solicitava a presidente, falando em nome das associadas.
— Anote aí, Udo!
E assim por diante.
— Meu filho precisa de um nebulizador!
— Anote aí, Udo!
O Udo anotava tudo. Até que, em determinado dia, a caderneta ficou completamente cheia. Fiel ao seu empregador, perguntou em voz baixa para Hilário:
— Candidato, a nossa caderneta já está cheinha. Não dá para escrever mais nada. O que eu faço agora?
Sem vacilar, Hilário orientou o secretário:
— Ora bolas, jogue essa fora e comece outra.