Como muitos de minha geração, guardo lembranças do Grande Otelo desde muito criança, no tempo em que frequentava os matinês do Cine Castelo e assistia empolgado aos filmes produzidos pela Atlântida Cinematográfica, onde ele contracenava com o genial Oscarito. Anos mais tarde, já na adolescência, lembro que certa noite furei o cerco da censura controlada pela Dona Lurdes, proprietária do Cine Delcap, e assisti ao filme 'Macunaíma', onde o ator deu vida ao romance de Oswald de Andrade, num corolário irônico e com alguns palavrões, a maioria deles ceifados pela censura.
Alguns anos depois, fui conhecer o Grande Otelo pessoalmente por contingência profissional. Lembro que era o Festival de Cinema de Gramado de 1983. Repórter daquele tipo que faz de tudo, fui designado pela Rádio Gaúcha para cobrir o famoso evento de cinema na Serra Gaúcha. A oportunidade me permitiu entrevistar diversos diretores, atores e atrizes da época, porém, entre as dezenas de entrevistas e contatos, três marcaram aquele período da minha vida profissional: uma agradável e memorável conversa com a quase centenária multi-atriz Henriqueta Brieba, uma longa entrevista de uma pergunta com resposta de meia hora com o controvertido e polêmico diretor José Celso Martinez Corrêa (O Rei da Vela) e o grande, com a necessária redundância, "Grande Otelo", numa oportunidade que passo a descrever.
A princípio, Otelo relutou em me conceder a entrevista porque, após uma tumultuada presença na mídia por causa da bebida, ele procurava reorganizar sua vida e, portanto, tentava manter um distanciamento das manchetes. Depois de ouvir meus argumentos, permitiu-me uma conversa rápida, numa mesa pouco iluminada, num dos cantos de um dos bares do hotel Serra Azul de Gramado. Os cinco minutos previamente combinados e acertados se transformaram em mais de uma hora e meia de uma conversa, para mim inesquecível. Ele, instigado pela minha admiração e pela minha franqueza, passou a discorrer e rememorar sua carreira e sua vida, enquanto bebíamos café e água mineral. Mesmo sob a luz fraca, seus olhos às vezes brilhavam intensamente quando viajavam no tempo. O gravador de fita K-7 registrava tudo. Com lucidez impressionante, falava dos tempos de parceria com Oscarito e das chanchadas, e assim nosso tempo passou, voou rápido... rápido demais...
No final, chamado para outro compromisso, nos despedimos com simpatia, parecíamos dois velhos conhecidos se despedindo, porém, para jamais se reencontrarem nesta vida. (...)
Meus tempos de repórter com muita frequência me remetem a maravilhosas e melancólicas lembranças..