Especiais Jalmo Fornari
Enchentes gaúchas
Travessia do rio Pelotas
14/05/2024 12h25
Por: Jalmo Fornari

O ano era 1964. Eu tinha apenas 6 anos e fiz a minha primeira viagem de Tenente Portela para o mundo. Meu pai, meu herói, era motorista e proprietário de um caminhão FNM, que em busca do sustento da família percorria as estradas do Brasil. Como eu já sabia ler e escrever (mais ou menos) ele me prometeu no meio do ano uma viagem em sua companhia  e cumpriu. Quando decidiu executar a promessa embarquei no caminhão com destino ao Rio de Janeiro,  sequer imaginava os desafios daquela aventura. As estradas, naqueles tempos, em geral não eram pavimentadas, e, já na Vila Fogo, hoje município de Erval Seco, começamos a enfrentar chuva e lama. "O tempo foi ficando feio de fato". Os rios encheram e quando estávamos nos dirigindo para a divisa do Rio Grande do Sul encontramos um congestionamento de caminhões, motivo: a enchente havia levado a ponte sobre rio Pelotas. Fomos obrigados a ficar uma semana em acampamento com outros motoristas, na estrada. A agua que bebíamos era da chuva e comida arroz com salame compartilhado com outros caminhoneiros. A expectativa toda era esperar o  rio baixar enquanto Exército Nacional, em tão exíguo tempo, construísse uma ponte de emergência. 
Promessa cumprida em tempo recorde.
A ponte era a junção de dezenas de barcaças postas uma ao lado da outra, sustentando um madeirame que permitisse, um a um, o trânsito dos veículos.
(...)  Ainda hoje, do lado catarinense, quando se cruza a ponte nova, está um daqueles barcos que integraram aquela epopeia, em uma merecida homenagem.
Lembro o pavor naquela situação. Águas elevadas, a ponte chacoalhando e ringindo e meu Pai dirigindo com toda tensão imaginável, talvez à 5km por hora, focado na expectativa de conseguir chegar até a outra margem...
Uma lembrança que aflora quando acompanho tragédias como a que vivemos nestes dias.
À propósito, dias depois chegamos ao destino: Cidade do Cabo Frio no Rio de Janeiro, onde conheci o mar e a água de coco. Após recarregar o velho FNM, claro, com outras tantas impressões, não tão marcantes, voltamos para a pequena e quase esquecida referência no mundo, a nossa Tenente Portela.