Especiais Jalmo Fornari
O maravilhoso cine Castelo
Lembrança de uma cidade pequena
05/04/2024 16h27 Atualizada há 2 anos
Por: Jalmo Fornari

Castelo era o nome da acanhada sala de espetáculos encravada na esquina da rua Juçara com a Redenção. Inaugurada em 1957, servia como local de viagens e sonhos para a população da pequena cidade recém-emancipada. No alto da fachada, sobre as bilheteiras e o espaço onde eram afixados todos os cartazes dos filmes, ficavam as famosas cornetas. Eram duas enormes de metal, que anunciavam para a cidade as matinês. Nas tardes de domingo, logo após o almoço em família, as cornetas começavam a distribuir por todo o perímetro urbano o aviso sonoro, festivo e estridente, anunciando que naquela tarde haveria espetáculo. Hoje, imagino que o operador do som devia ter uma predileção por música italiana. Em alto volume, predominavam músicas de Gigliola Cinquetti (inesquecível "Non ho l'età"), Gianni Morandi e Sergio Endrigo, entre outros. Vez por outra, entravam no "play list" sucessos da jovem guarda e até as músicas do Carequinha. Uma mistura variada que alegrava a todos. Uma mistura de “O Bom menino não faz pipi na cama...” com “Dio come ti amo” e com o “Calhambeque” do Roberto, que estourava nas paradas.

Em grupos de 4 ou 5 meninos, nos dirigíamos à meca do som como se fôssemos puxados pelos ouvidos. As meninas andavam em grupos próprios. Nossas mães nos vestiam com a melhor roupa e depois enfiavam em nossos bolsos uma nota de dois ou de cinco cruzeiros, pois o ingresso custava um cruzeiro. Assim, íamos alegres e saltitantes ao cinema, à matinê, ao espetáculo, ao nosso castelo de sonhos e fantasias. As películas projetadas eram as mais variadas, mas o que empolgava mesmo a piazada do meu tempo eram os faroestes, tanto que tínhamos uma coleção própria de heróis de Hollywood, atores que marcaram época como mocinhos e bandidos no gênero bang-bang. Entre eles, queríamos ser John Wayne do inesquecível “Bravura Indomita”, Giuliano Gemma de  ‘’Uma Pistola para Ringo”, James Stewart do incrível “O preço de um homem” , Clint Eastwood da fita “Por um punhado de dólares”, Henry Fonda  do clássico “Era uma vez no Oeste”, Kirk Douglas  do “O último por do sol” ou o insubstituível Charles Bronson  do clássico “Sete homens e um destino, entre tantos outros heróis.  Claro que além dos heróis haviam as mocinhas. Algumas que habitaram nossos sonhos juvenis até a adolescência como Claudia Cardinale , Jill Ireland e Barbara Stanwyck.

A empolgação durante as sessões era tanta que, com muita frequência, o dono do cinema se via obrigado a acender as luzes e interromper a sessão pedindo para a turma se acalmar. Isso ocorria quase sempre durante os assaltos às diligências ou quando havia perseguições aos bandidos... todos batiam nervosamente os pés no assoalho de madeira do cinema Castelo...o barulho ensurdecedor tomava conta do local... para acalmar, só mesmo acendendo as luzes... Além dos faroestes, gostávamos também de filmes de comédias como os de Jerry Lewis, Cantinflas e as fitas do  imortal Charles Chapilin ou o nervosismo dos thriller  de gladiadores  como “Ben-Hur”, “Spartacus” , “Aqueda do Império Romano”  entre outros e muitos.

 Eram estes últimos que também que faziam a diversão extrapolar às emoções das telas. Depois das projeções, passávamos a tarde brincando de mocinho e bandido, assaltando bancos e roubando diligências ou jogando pôquer nos “saloons” onde habitavam as nossas futuras namoradas. Andando de “bigas” ou lutando com espadas. Em uma infância de parcos brinquedos, fora os que improvisávamos, os filmes eram a nossa maior fonte de inspiração e o Cinema Castelo, um verdadeiro lugar encantado  que alimentava nossa imaginação, nossas fantasias e os nossos sonhos.