O “Tripa”, um rapaz magro e muito alto, o que deu motivos de sobra para ter este apelido, marcou uma época na nossa cidade. Ele foi um adolescente irrequieto e criativo, sempre disposto a aprontar alguma, seja para proveito próprio ou para se divertir às custas dos outros.
Naquela época, lá pelo início da década de 70, havia no município, entre tantos, um colono de origem alemã que vinha à cidade com uma enorme carroça puxada por uma magnífica junta de bois. Ele era conhecido pelo tamanho da carroça, pela junta de bois, pelo sotaque carregado, por sua enorme estatura e, é claro, pelos suspensórios coloridos que sustentavam suas calças.
Em frente à então nova estação rodoviária, havia sido inaugurada a primeira boate da cidade, chamada “Sucata”. O estabelecimento era ornamentado com peças de automóveis antigos e era o ponto de encontro dos estudantes. Em uma bela noite, enquanto bebia seu último trago no balcão do bar da rodoviária antes de pegar a carroça e voltar para sua propriedade, o alemão, que atendia pelo apelido de LULU, intrigado com o entra e sai do local, perguntou a um rapaz que estava ao seu lado no balcão o que funcionava naquele local. A curiosidade era aguçada pelas muitas meninas bonitas que entravam e saíam de lá.
O Tripa, que estava ao lado dele, inventou uma história imediatamente ao ver o interesse de seu Lulu:
-Olha, pelo pouco que sei, ali funciona uma boate bastante frequentada por "menininhas de programa". Sabe como é? Todo mundo dança pelado lá dentro!
O Lulu, interessado, manifestou vontade de conhecer o local. O Tripa, malandramente, explicou que precisava de 10 cruzeiros para conseguir um ingresso, justificando que era assim que funcionava e que ele conhecia alguém que trabalhava lá. Sem hesitar, o velho tirou uma nota de 10 cruzeiros e deu para o malandro.
Minutos depois, o Tripa voltou dizendo que estava tudo acertado. O amigo permitiria sua entrada e explicou as regras da casa, como toda zona tem. Ele disse que, para entrar, o Lulu deveria tirar toda a roupa, pois só se admitiam pessoas peladas na pista de dança.
O pobre homem, hesitante, entrou no prédio, foi direto ao banheiro e se despiu. Imponente, dirigiu-se ao bar e à sala de dança. Neste ínterim, o Tripa pegou todas as roupas do Lulu e sumiu pela noite afora.
Bastaram alguns minutos para que as moças e os rapazes que se divertiam no local, algumas das mais destacadas famílias da pequena localidade, saíssem correndo ou gritassem nos cantos, horrorizados com a cena inusitada do Seu Lulu pelado, com a sua enorme barriga e com os documentos à mostra, a meio mastro, buscando par para dançar.
Logicamente, tudo acabou na delegacia de polícia, onde, tapando suas partes pudicas com uma minúscula toalha de rosto, o Lulu explicava que fora vítima de um golpe. Nervoso e assustado, tentava descrever o cara que levou os 10 reais e o colocou numa gelada.
-Um rapaz alto e muito magro...
-Pode parar! mais uma do Tripa! Vaticinou o inspetor Nei.
Ele já sabia nem adiantava buscar o sujeito. Liberou o alemão para ir embora e o Tripa, como sempre, não foi encontrado na cidade por vários dias. Reapareceria quando o assunto esfriasse, dando espaço para mais uma destas muitas histórias que acontecem em cidades pequenas.