Algumas memórias da minha infância ressurgem como fatos envoltos em névoas, iguais àquelas cenas que apareciam nos filmes antigos do velho Cine Castelo. Entre tantas lembranças, uma que ainda esvoaça colorida na minha mente quando recordo os meus tempos da infância refere-se às antigas manhãs de domingo, onde, com a nossa melhor roupa e o cabelo lambido por ter sido penteado ainda molhado, íamos todos para a missa, quase em fila indiana, na pequena igreja de madeira da vila, atendendo ao badalar do sino do minúsculo campanário.
Era um ritual semanal e sagrado, mesmo que para mim soasse como uma longa penitência ouvir por mais de uma hora aquelas intermináveis e incompreensíveis orações em latim. No entanto, nem tudo era tédio; o que me encantava eram os "coros" entoados em uníssono pelo público, em resposta às muitas provocações litúrgicas do sacerdote. Confesso, eu adorava aqueles longos e melódicos "Et cum spiiiiiritu tuooooo" após os, não menos harmônicos, "dominuuuuus vobiiiiscum" entoados pelo padre. Mas o que nos fascinava mesmo e me fazia repetir em coro, com toda a força de minha voz infantil, era o longo e imperioso "áááááááámmméééééé´mmmmmm", no final de todas as orações.
A parte mais inteligível daquele espetáculo quase medieval, com sons, cantos remetendo aos gregorianos, padre de costas e de frente ao altar, rezas em latim e ladainhas intermináveis, era a "prédica" no púlpito. Solenemente o padre, ainda no altar, fechava o livro de orações numa postura teatral, rebuscada de detalhes, se curvava com reverências antes de uma genuflexão e só então se dirigia lentamente para a parte elevada, que ficava à direita dos fiéis. Aquela pequena procissão era sucedida por um farfalhar de folhas de breviários e livros de orações se fechando e um ruído generalizado dos corpos mudando de posição. Todos os tementes a Deus, mas principalmente a uma possível cobrança futura do padre, se voltavam de corpo e alma para o púlpito.
Os fiéis acompanhavam cada gesto, cada palavra do pregador. Nós, crianças, arregalávamos os olhos principalmente quando ele falava do fogo inferno, do flagelo das almas e das dores do purgatório. Neste trio: céu, purgatório e inferno, o que mais me despertava a curiosidade de criança, até porque pouco se falava, era o limbo, um local destinado aos que morreram sem serem batizados. No fundo, tinha uma ponta de inveja dos que não foram batizados, porque se, por um lado, perderiam o céu, não corriam o risco do incômodo purgatório ou do terrível e irreversível inferno.
Assim eram as missas na minha infância. Solenes, severas e obrigatórias, sob o risco de faltar e cair em pecado e se tornar candidato ao inferno. Assim eram os domingos, antes dos almoços em família, já quando aliviados e com o dever canônico cumprido, brincávamos nos pátios depois de desvestir as roupas domingueiras de ir à igreja. Voltávamos a ser crianças normais que aguardavam famintas o frango assado com polenta, ou a massa com molho de galinha, acompanhadas por suco de groselha quase à vontade... Afinal, era domingo, dia do Senhor, e com a missa, ora já esquecida, havíamos garantido mais um ponto para nossa passagem gloriosa deste vale de lágrimas para o céu, como minha mãe gostava de repetir.