A via sacra
Minha mãe já havia chegado aos 70 anos, mas continuava sendo uma senhora ativa e dinâmica. Passava pelo menos um dia da sua semana visitando doentes e levando o conforto, através de orações e palavras de confiança aos que estavam mais necessitados, em casa ou no HSA. Nestes encontros rezava solenemente o rosário e descrevia cada uma das estações com suas próprias palavras. Nos sábados e domingos, nas missas da Paróquia, cantava e era a voz melódica que se escutava clara e cristalina na praça em frente, quando eram entoados os hinos sacros. Sabia de cor qualquer um dos cantos sem recorrer aos livrinhos espalhados nos bancos. Era o que se pode chamar de mulher de fé, mas sua vida não se resumia a isto.
Quando mais jovem, se orgulhava de ser autodidata na costura e no tricô, aliás, neste último ela foi professora de dezenas de mulheres que sentavam nas tardes monótonas na sala de nossa casa, e entre rodadas de mate, conversas sobre o cotidiano –delas- ou sobre as tragédias das demais, faziam metros e metros de tricô. Mantas, cachecóis, casacões e coletes, tudo em ponto por ponto, saiam das agulhas daquele grupo de senhoras lideradas e orientadas por mamãe. Ela se orgulhava em inventar tranças, pontos e adereços misturando diâmetros e cores de linhas e lãs. Algumas de suas melhores criações eram guardadas cuidadosamente em sacos plásticos repletos de naftalina e só eram abertos e com orgulho para as visitas importantes, em seu critério.
Da velha Elgin, depois que aprendeu a costurar e fazer modelos saiam todas as nossas roupas. Afinal éramos seis meninos, que apesar de se vestirem com a roupa que já não serviam nos mais velhos às vezes precisavam renovar os estoques. Nossa mãe fazia calças, calções e camisas. Mais arriscadamente confeccionava casacos de lã para o inverno, folgados o suficiente para caberem sobre os “pulôveres” de lã.
Era criativa e irrequieta. Lá pelos 70 anos decidiu que tinha que seguir a intuição de artista e dar formato plástico às estações da via sacra que ela, sempre emocionada e com profundo respeito, descrevia de olhos cerrados nas novenas da “Semana Santa”. Talvez nunca tivesse imaginado que um dia iria esculpir ou trabalhar com barro ou cerâmica, mas intimamente topou o desafio. De certo considerava aquilo como um chamado do Senhor.
Fez meu pai, que, aliás, sempre foi solícito a todos os seus pedidos possíveis, procurar uma olaria que estivesse disposta a ceder o barro e depois cozinhar as peças formatadas. Nas noites, enquanto Papai via televisão, ela, cantarolando uma ária sacra, ia aos pouco domando o completo desconhecimento daquela arte e dando, conforme sua imaginação, o formato e o conteúdo dos quadros.
Foram meses e meses, no início eles eram feitos em segredo, depois os filhos tiveram acesso e por fim mostrava com o olhar de missão cumprida, alguns dos 14 quadros para as amigas. Concluídos, foram colocados, depois de um grupo convencer o vigário, no bosque da grutinha na paróquia de minha cidade. Lá estão eles, um a um, com uma frase pintada descrevendo cada uma das estações dolorosa da Via Sacra de Cristo, finalizado, no extremo do corredor, com o quadro da gloriosa ressureição.
Estão ainda lá, apenas envernizados, mas sem assinatura, sem referência, por que assim ela queria. Seria a sua contribuição anônima para manter viva a fé dos que viriam depois dela.