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Variedades

20/08/2018 ás 10h25

Jonas Martins

Tenente Portela / RS

Um conto de amor
O ser humano demora para admitir que ficou velho, que já não é mais a mesma pessoa
Um conto de amor

Ele a conheceu há muito tempo. Quando ainda eram duas crianças. Ela mudou-se para a rua dele. Foi amor à primeira vista. Os olhos dela se cruzaram com os dele de forma que ele jamais esqueceria. Ela também se apaixonou, eram novos é verdade, mas estavam apaixonados. Eternos apaixonados na inocência e sinceridade da infância.
O tempo passou, ele ficou amigo dela, mas nunca teve coragem de dizer o que sentia. Para os apaixonados o tempo passa mais rápido. Ele a viu crescer, viu seu corpo se transformar. Muitas vezes suspirou por ela, às vezes até chorou, e chorava ainda mais por sua própria covardia, que o impedia de dizer que a amava, como jamais ninguém a amaria.
Ela começou sair com outros caras. Ele começou a perceber que a estava perdendo. Sabia que precisava falar, ele tinha que falar, mas não falou. O colegial acabou.
Ele foi para a faculdade de Direito, ela não. E assim os dois corações apaixonados se separaram.
Ele se formou, estudou ainda mais, tornou-se professor universitário, mas apesar do sucesso profissional, dentro dele havia sempre uma falta, um vazio, algo que ele precisava preencher. Um dia voltou para sua cidade. Ela seguia lá, linda, bela, como sempre. Pensou um milhão de vez em dizer que a amava. Falou com ela sobre tudo, menos sobre o que mais importava. Perto dela seu coração batia mais forte, suas mãos suavam, sua voz ficava mais fraca e toda a confiança do advogado acostumado a enfrentar turmas cheias de alunos, juízes, promotores e tribunais se esvaia pelos poros abertos de sua alma.
O tempo passou e como tudo na vida as coisas se transformaram. Ele a encontrou novamente em uma cidade onde daria uma palestra, mas agora era tarde demais. Ela estava acompanhada do marido e do filho pequeno. Ela tinha seguido a vida dela e ele a dele, o problema é que sem ela a dele não tinha sentido.
O tempo passou, ele casou-se. Teve filhos. Não podia reclamar da vida. Era um homem realizado. Tinha uma família, tinha um bom emprego, tinha tudo o que qualquer ser humano pode querer para si, mas sempre que deitava a cabeça no travesseiro vinha a lembrança de que lhe faltava o mais importante. Faltava ela. O amor nunca vivido.
Sabia ele em seu íntimo que de todas as mulheres que teve, de todas as bocas que beijou, de todos os corpos que abraçou, a única que lhe fazia falta, era exatamente aquela que nunca teve.
Ele ainda a via em algumas ocasiões especiais. Agora ela não era mais uma menina, mas ainda era bela. O tempo não tinha lhe feito nenhum mal. No fundo ele sabia que o tempo era implacável com todos, mas também sabia que a beleza é relativa aos olhos de quem a vê, e os seus olhos, eram olhos de um menino apaixonado.
E então a velhice chegou. O ser humano demora para admitir que ficou velho, que já não é mais a mesma pessoa. Geralmente é preciso que haja um evento em sua vida que mostre o quanto ele perdeu para o seu corpo. No seu caso foi a viúves. A falta da companheira que esteve ao seu lado por toda a vida lhe mostrou que ele já não era nem de perto o homem que fora um dia.
Eis então que ele decidiu que se internaria em uma casa de repouso. Não queria ser um estorvo para ninguém. Chegou junto a porta do local e numa grande sala viu diversos idosos, alguns em círculos conversando, outros fazendo algumas atividades, outros vendo televisão e eis que no outro lado da sala, sentada em uma cadeira olhando para o jardim, estava ela. Quando ele a viu teve dúvidas, era a hora.
Ele deixou a moça que o acompanhava sozinha, atravessou o salão sem tirar os olhos do local onde ela estava e quando se aproximou, ela olhou e riu. Aquele sorriso que ele conhecia tão bem. Ele não se agüentou e gaguejando disse as palavras que tinha guardado para si pela vida toda: "Eu te amo." Ela levantou e se jogou em seus braços em lágrimas: "Pensei que você nunca fosse dizer."
Eles viveram o seu amor por dois meses. No final deste período ele perdeu para o tempo. Pouco antes de morrer ele fechou os olhos e agradeceu a Deus. Não pela velhice que ele odiava, não pela morte que pairava sobre ele, não pelo sucesso profissional que ele teve, não pelos filhos que eram seu orgulho, mas porque apesar de tudo, ele morria nos braços do amor e nada na vida ou na morte, vale mais que isso.       


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FONTE: Jonas Martins

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Blog/coluna Apresentador da Rádio Província FM, sub-editor do Jornal Província e escritor, neste espaço você poderá acompanhar crônicas e opiniões de Jonas Martins
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