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22/03/2019 ás 10h51 - atualizada em 22/03/2019 ás 10h55

Jonas Martins

Tenente Portela / RS

Nilton Kasctin dos Santos: A última casa
Dar o seu melhor deve ser sempre a sua melhor regra
Nilton Kasctin dos Santos: A última casa
Coluna do promotor Nilton Kasctin dos Santos no Jornal Província dessa sexta (Foto: Reprodução Youtube)

- Vim despedir-me e buscar minhas coisas – diz o carpinteiro João Pedro assim que entra na sala do gerente.


É seu primeiro dia de aposentado depois de trinta anos de trabalho na empresa de construção de casas.


Depois de um rápido telefonema, o ex-chefe pede que o homem aguarde um pouco, informando que o dono da empresa deseja conversar pessoalmente com ele.


Não demora muito e surge o empresário, que não esconde uma certa tristeza por ver indo para casa seu melhor empregado.


- Seu trabalho foi decisivo para o sucesso da empresa – diz o dono. – Sua habilidade de exímio carpinteiro ajudou a construir algo mais importante do que casas bonitas: a imagem positiva da empresa. Devo muito a você.


João Pedro agradece emocionado.


Mas antes do abraço de despedida, o ex-patrão lhe faz um pedido:


- Quero que você construa só mais uma casa.


Antes que o carpinteiro esboce qualquer reação, passa-lhe às mãos um papel, emendando:


- Aqui está a autorização para compra do material necessário, na conta da empresa, inclusive para aquisição de um terreno na região de sua preferência. Não importa quanto irá gastar, não importa o modelo da casa, o tamanho, nem quanto tempo levará para ficar pronta.


O construtor aceita a incumbência. Aliás, sequer cogita contrariar o ex-patrão. Está tão acostumado a cumprir ordens na empresa, que não consegue ver aquele pedido senão como mais uma delas, mesmo agora na condição de aposentado.


Depois de uns dias de folga, começa a colocar em prática o projeto. Escolhe um terreninho barato, pequeno e mal colocado, por ser mais próximo da casa em que mora de aluguel. Tem “carta branca” para adquirir um terreno em área nobre da cidade, mas prefere assim por ser mais cômodo, e mesmo porque suas obrigações com a empresa cessaram no momento da aposentadoria. E o empresário deixara bem claro: aquilo não era uma ordem, mas um pedido. E a casa deveria ser inteiramente do gosto de João Pedro, inclusive quanto à localização.


Não demora muito, toda a parentela e vizinhança de João Pedro fica sabendo da história, alguns oferecendo-se para ajudá-lo na obra e assim receber alguns trocados “nas costas do empresário”, que, como dizem, “é muito rico e tem dinheiro para botar fora”.


A ideia de um mutirão é bem aceita pelo aposentado, que pensa: “assim ajudo meus parentes e vizinhos, não vai um mês e estou livre do compromisso”.


Melhor ainda é a ideia de comprar de um parente toda a madeira retirada de um casarão que fazia tempo fora desmanchado. O material não é bom, mas o vendedor entrega na obra. Claro que o preço pago ao parente é de madeira nova de lei, mas a oportunidade de ajudá-lo às custas do empresário rico não pode ser desperdiçada.


Poderia construir uma mansão em área nobre da cidade. Mas, como tem plena liberdade para decidir, opta por uma casinha simples, feita com material quase inservível, espremida num pequeno terreno de difícil acesso.


Chega o dia da entrega das chaves ao dono da obra, o empresário rico. A vila toda parada. Centenas de curiosos reunidos em torno da casinha não veem a hora de descobrir o que pretendia o ex-patrão do carpinteiro com a história da última casa.


A decepção toma conta dos dois. Do empresário, porque esperava encontrar uma mansão, e agora se depara com aquele arremedo de casa. Do carpinteiro, porque ouve da boca do ex-patrão:


- Essa casa é sua. Foi a maneira que encontrei para retribuir um pouco de tudo o que você fez pela minha empresa.


 

FONTE: Jornal Província

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Blog/coluna Promotor de Justiça, professor universitário e defensor do meio ambiente e do direito e bem estar do ser humano. Nilton Kasctin dos Santos escreve quinzenalmente no Jornal Província
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