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08/03/2019 ás 07h45 - atualizada em 12/03/2019 ás 19h57

Diones Roberto Becker

Tenente Portela / RS

A agonizante realidade da Cotrijuí, que já foi a maior cooperativa da América Latina
Cooperativa está sob administração judicial desde janeiro do ano passado
A agonizante realidade da Cotrijuí, que já foi a maior cooperativa da América Latina
Cotrijuí possui dívidas que alcançam R$ 1,8 bilhão (Foto: Diones Roberto Becker)

Em 29 de janeiro de 2018, o Poder Judiciário determinou a intervenção na Cooperativa Regional Tritícola Serrana LTDA (Cotrijuí) e a nomeação de um administrador judicial. A deliberação do Juiz Nasser Hatem, da 1ª Vara Cível da Comarca de Ijuí, atendeu ao pedido apresentado pela Chinatex, uma das maiores credoras da Cotrijuí.


Conforme um levantamento realizado pela ex-diretoria da cooperativa, os débitos somam quase o dobro do patrimônio. Ainda no ano passado, a matriz da empresa, em Ijuí, foi alvo de operação do Ministério Público em conjunto com a Polícia Civil.


Pouco mais de um ano depois de sofrer a intervenção da Justiça, a Cotrijuí aguarda a sentença que definirá seu futuro. O processo movido pela Chinatex, que solicita a liquidação extrajudicial, aprovada em assembleia dos associados em 2014, pode ser convertida para liquidação judicial. Na prática, seria o reconhecimento legal da inviabilidade da cooperativa. A ação tramita na 1ª Vara Cível da Comarca de Ijuí.


Recentemente, a Associação de Credores, Amigos e Interessados no Soerguimento da Cotrijuí (ACAISC) ingressou com o pedido de destituição do administrador judicial que desde o ano passado comanda as operações da cooperativa.


Conforme a advogada da ACAISC, Acácia Wakasugi, os administradores deixaram de cumprir algumas exigências da lei. Ela cita como exemplos, a ausência de normas técnicas na avaliação da Cotrijuí; a não apresentação de documentos e de pagamentos de guias e tributos e o não levantamento dos créditos e débitos, entre outros. O pedido da ACAISC foi entregue no dia 04 de fevereiro deste ano e ainda não há nenhuma manifestação da Justiça sobre as irregularidades apontadas.


Na última sexta-feira (1º), o escritório Brizola e Japur, responsável pela administração judicial da cooperativa, emitiu uma nota de esclarecimento rebatendo as colocações da ACAISC.


A nota de esclarecimento evidencia oito pontos específicos. Entre eles, afirma que a administração judicial não negou a ACAISC ou a qualquer interessado, informações sobre as operações da Cotrijuí, salvo em relação aos dados confidenciais dos produtores; nega que os supermercados da REDECOOP estejam abandonados ou desabastecidos, mas reconhece as dificuldades financeiras; diz que é inverdade que os tributos correntes do período de intervenção judicial na cooperativa não estejam sendo quitados; e destaca que o plano de reestruturação da cooperativa, apresentado pela ACAISC, não menciona nenhuma proposta de aporte financeiro e nem como serão pagos os credores.


A nota de esclarecimento ainda enfatiza as seguintes ações: manutenção das atividades da REDECOOP; arrendamento das unidades que não se mostravam viáveis; inventário de grãos e distribuição do produto da venda aos associados que haviam depositado na condição ‘Armazém Geral’; regularização de salários dos funcionários remanescentes e início do pagamento na data de vencimento; mobilização para atualizar a contabilidade e encerrar os demonstrativos contábeis de 2017 e a realização de assembleia com produtores e interessados visando à constituição de um fórum de discussão e acompanhamento das atividades da administração judicial.


Sobre a nota de esclarecimento, Acácia Wakasugi lamentou esse tipo de procedimento. – O que queremos é clareza no processo da administração judicial – reiterou a advogada.


Episódios marcantes:


A Cotrijuí foi fundada em 20 de julho de 1957. No dia 04 de dezembro do mesmo ano, aconteceu a inauguração do primeiro armazém metálico, com 2,4 mil metros quadrados de área coberta e localizado a oeste da viação férrea de Ijuí. Naquela safra, a cooperativa recebeu 4.295 toneladas de trigo.


A expansão da Cotrijuí iniciou em 1969 com a construção da unidade de Santo Augusto. Em dezembro daquele ano, a Assembleia Geral aprovou a construção do terminal portuário em Rio Grande. O terminal graneleiro ficou pronto em 1972 e foi importante para impulsionar a exportação gaúcha de grãos, sendo responsável pelo escoamento de 80% dos grãos produzidos no Rio Grande do Sul.


Pela estrutura na época e investimentos consolidados, a Cotrijuí foi considerada a maior cooperativa da América Latina na década de 70. A partir dos anos 2000, a Cotrijuí começou a acumular dívidas.


Capítulos recentes:


- 2013: O advogado Vanderlei Fragoso vence a chapa da situação em uma eleição considerada muito acirrada. Após 18 anos, Carlos Poletto deixa a presidência da Cotrijuí com dívidas que alcançam mais de R$ 1 bilhão.


- 2014: Sem conseguir a imediata revitalização financeira, a cooperativa entra em liquidação voluntária. A medida adotada em assembleia extraordinária é contestada por parte do quadro social, mas suspende temporariamente a execução de cobrança dos credores.


- 2015: A Junta Comercial do Rio Grande do Sul cancela a ata da assembleia extraordinária que decidiu pela liquidação voluntária da cooperativa por suspeita de irregularidades. O ato é revogado e o processo extrajudicial é restabelecido.


- 2017: Em meados daquele ano, o escritório de advocacia, responsável por assessorar no processo de liquidação voluntária, encerra o contrato de prestação de serviços. Em outubro, Vanderlei Fragoso deixa a presidência da Cotrijuí. Eugênio Frizzo, diretor de Planejamento da cooperativa, assume o cargo.


- 2018: O Ministério Público e a Policia Civil deflagraram a Operação Cotrijuí, que apurava a suspeita da venda irregular de grãos sem a devida autorização dos produtores, além de fraudes nas gestões da cooperativa. No decorrer do ano, a Justiça determinou a liquidação judicial da Cotrijuí, atendendo ao pedido apresentado pela Chinatex, uma das principais credoras da cooperativa.

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