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05/12/2018 ás 14h41

Jonas Martins

Tenente Portela / RS

RECREIO COMO ESPAÇO/TEMPO ESCOLAR
Por: Adelino Vasconcellos com licenciatura em Educação Física pela Unijuí; professor da Rede Municipal de Ensino de Derrubadas-RS
RECREIO COMO ESPAÇO/TEMPO ESCOLAR

Ao estudar alguns trabalhos realizados na área do recreio escolar, é de notável importância salientar que se trata de um assunto ainda pouco investigado, no qual, dentre os trabalhos já desenvolvidos, cita-se de Wenetz (2005), Pinno (2008) e Silva (2003). Desta forma, enfatiza-se que os mesmos se deparam com alguns pontos em comum, o que não é diferente na realidade na qual realizo minha investigação.


                Períodos que não passam nunca, horas intermináveis, apreensão em tudo que acontece fora da aula, uma simples batida na porta da sala ao lado já é motivo para a turma toda se desconcentrar, a pergunta feita à professora, por uma criança que ainda não associa os ponteiros do relógio com uma noção de tempo “que hora é, profe?”, e então toca a tão esperada sirene, que na escola é interpretada como “já bateu”. Daí só o que se escuta são barulhos, gritos, corre-corre, brigas, xingões, namoricos, chicletes, bolas, cordas, professores entediados com a algazarra, chacotas, mp3, celulares, salgadinhos, gizes, cartinhas, “bolitas”, mas enfim chega o momento mais esperado do dia – o recreio, pertinente na vida de todo o estudante, espaço onde os olhos dos adultos estão mais permissivos, deixando passar quase tudo, uma vez que este é o tempo que as crianças têm para (des)cansar. E Wenetz (2005, p. 48) coloca que neste espaço escolar “também existem silêncios no recreio, o das vozes que não se ouvem. Quem não fala ou fala e se confunde com as outras falas? Quem resiste a fazer alguma coisa não permitida? Quem desvia? Quem cria?”


Nesta afirmação trago algo que é inquietante quando traduzo com palavras a ansiedade das crianças pela chegada da hora do recreio – “o momento mais esperado do dia”. Mas será que as horas de aula não são esperadas para os educandos? A resposta que encontrei foi dada por Fensterseifer (comunicação oral, 2008), de que a hora do recreio, assim como o término da aula, são dois horários esperados, pois funciona como uma quebra de rotina. Explica ainda que se os educandos fossem todos os dias à escola e se deparassem com intermináveis horas de descanso, logo a mesma se tornaria rotina.


Por ora, nesta produção o objetivo é de estudar exatamente este tempo-espaço denominado recreio escolar, ou seja, aquele intervalo das aulas que é um momento presente na vida de todo estudante. Sem buscar a delimitação de termos, mas entendendo como fundamental à sua compreensão a análise etimológica da palavra “recreio”, esta revela em sua raiz estreita ligação com termo “recreação”: período para se recrear, como, especialmente, nas escolas, o intervalo entre as aulas. Nesta mesma linha menciono Wenetz (2005, p. 91), que cita algo dito por Geertz (1999) que vem ao encontro deste pressuposto: “A cultura do recreio vai criando suas próprias regras, o que permite passar de uma experiência distante para uma experiência próxima que os membros de uma cultura específica utilizam para compreender seu próprio contexto.”


De certa forma, o espaço do recreio leva um significado para as crianças que pode ser incorporado de várias formas distintas, servindo como laboratório onde possivelmente se constata que na escola é o lugar onde se pode vivenciar. A realidade deixa claro que se vive na era do “desencanto escolar”, na qual muitos dos educandos não estão receptivos à aprendizagem, há desinteresse pela leitura e escrita, pelos cálculos matemáticos, pelo aprendizado em geral. A indisciplina faz parte do cotidiano escolar e muitos educadores sentem-se frustrados por não conseguirem resultados satisfatórios. Acredito que este tempo que se passa com os educandos fora da sala de aula pode favorecer o encontro de algumas palavras-chave para, se não resolver este problema, ao menos entendê-lo com o fim de amenizar este (des)encanto.


Desta maneira chama-se a atenção para o que Coménio (1996, p. 186) coloca a respeito do tempo:


 


A arte de ensinar nada mais exige, portanto, que uma habilidosa repartição do tempo, das matérias e do método. Se conseguirmos estabelecer com exatidão, não será mais difícil ensinar tudo à juventude escolar, por mais numerosa que ela seja, que imprimir com letra elegantíssima, em maquinas tipográficas, mil folhas por dia [...] e tudo andará com não menor prontidão que um relógio posto em movimento regular por seus pesos.


  


Sendo assim, acredita-se que tudo tenha um tempo certo para acontecer, para que haja eficiência e agilidade no processo educacional. É preciso conhecer e dominar o espaço e o tempo para que as crianças tenham um lugar chamado espaço adequado num tempo apropriado. E neste espaço exterior à sala de aula, conforme Freire (1997), acontecem duas atividades principais: a aula de Educação Física e o recreio. Este segundo é o espaço mais permissivo, mas, mesmo assim, de certa forma controlado, pois uma parte do tempo é consumida pela merenda, outra parte na formação de filas e colunas para entrar e sair da aula. Tudo isso, de alguma forma, permite que não se perca o controle sobre os alunos durante o recreio (FREIRE, 1997, p. 214).


É no contexto dessa cultura escolar, informada pelas culturas constitutivas dos diferentes sujeitos que a integram, que o recreio – identificado como um tempo/espaço onde ocorrem interações entre diferentes tipos de estudantes, que seriam supostamente mais livres e menos regradas pelos dispositivos escolares – se constitui um momento da vida escolar em que acontecem diferentes aprendizagens, em especial aquelas que ocorrem através das brincadeiras (WENETZ,  2005, p. 86).


 


Entende-se que neste momento no pátio da escola e durante o espaço do recreio existe uma negociação cultural que apesar de diferente da sala de aula não deixa de ser complexa e regrada para as crianças. Trata-se de um espaço de muita alegria, descontração e brincadeiras, pois estão livres na escola para liberar energia, usar a criatividade e, acima de tudo, serem elas próprias, sem nenhum adulto por perto para redimi-las ou até mesmo constrangê-las, utilizando de tudo aquilo que aprenderam dentro e fora da escola. Desta forma, os PCNs[1] trazem um chamado de responsabilidade para escola:


 


Cabe à escola trabalhar com o repertório cultural local, partindo de experiências vividas, mas também garantir o acesso a experiências que não teriam fora da escola. Essa diversidade de experiências precisa ser considerada pelo quando organiza atividades, toma decisões sobre encaminhamentos individuais e coletivos, e avalia procurando ajustar sua prática às reais necessidades de aprendizagem dos alunos. (BRASIL, PCNs, 1997 p. 59).


 


No decorrer dos anos como docente da escola investigada, deparei-me com inúmeros relatos sobre o que significa o recreio escolar, tanto de professores quanto para alunos. No que diz respeito a alunos irei fragmentar nos capítulos a seguir, o que deixo em foco neste parágrafo. Trata-se de um breve comentário que me soou sem querer na sala dos professores no decorrer do segundo semestre do ano de 2008. Na oportunidade estávamos sentados na sala dos professores esperando o início de reunião administrativa quando uma professora, ao notar que as crianças estavam brincando de pega-pega perto desta sala, fez o seguinte comentário. “que nojo, não dá nem pra conversar direito com essas crias incomodando aqui perto”. Todos ficaram calados, logo em seguida a mesma levantou e foi até a porta e disse para as próprias crianças: “Saiam daí, vão procurar outro lugar para brincar, este é espaço do nosso descanso longe de vocês”.


Tenho certeza de que os colegas (docentes)[2] que pensam desta forma são uma minoria dentro do educandário, pois consegui notar que o repúdio por parte dos que estavam na sala foi imenso, acompanhado de alguns comentários de defesa da permanência das crianças brincando naquele local e em qualquer espaço da escola que possa ser explorado pelos mesmos. O que menciono como minoria dentro dos educandários talvez tenha sido generoso pelo fato de conhecer somente esta realidade, pois o número de educandários no Brasil é imenso e não se conhece a fundo este campo.


 


REFERÊNCIA 


BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n. 9.394/96). Brasília: MEC/SEF, 1996.


______. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997.


COMÉNIO, João Amós. Didática magna. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996.


O corpo na escola. Parecer no Mestrado em Educação nas Ciências. Ijuí: Unijuí, 2000 (texto).


________.Comunicação oral. Ijuí: Unijuí, 2008


________.Comunicação oral. Ijuí: Unijuí, 2008


FERREIRA, A. B. de H. Novo Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.


FREIRE,  João Batista. Educação de corpo interiro: teoria e prática da educação Física. 3ª edição. São Paulo: Scipione, 1992.


PINNO, Fabiane Smaniotto. Recreio escolar: práticas corporais e suas significações. Ijuí: Unijuí, 2008 (Dissertação de Mestrado).


WENETZ, Ileana. Gênero e sexualidade nas brincadeiras do recreio. Porto Alegre: UFRGS, 2005 (Dissertação de Mestrado).





[1] PCNs – Parâmetros Curriculares Nacionais: Educação Física. Documento norteador produzido pela Secretaria de Educação Fundamental, do Ministério da Educação (BRASIL, PCNs, 1997).




[2] Na categoria docente estão incluídos, além dos professores e professoras, os/as especialistas, a direção, ou seja, os atores que têm um envolvimento direto com o trabalho pedagógico da escola e da sala-de-aula.



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