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Especiais

03/07/2018 ás 14h57

Jonas Martins

Tenente Portela / RS

Valeu a pena?
Será que no final da sua vida ela terá valido a pena?
Valeu a pena?

Ele era um menino brincalhão e levado. Gostava de correr pelo bairro com os amigos. Jogava futebol na rua e comemorava como um craque quando marcava um golaço nas traves improvisadas com um par de chinelos havaianas.


Sorria com os amigos e se escondiam no canto do mato para olhar as beldades das revistas de mulheres nuas. Olhava de longe para a Ritinha, a menina com vestido de chita e cabelo de Chiquinha que estudava na sua escola. Ele sonhava em ser jogador de futebol.


Um dia o menino cresceu. No ensino médio se deu conta de que precisava estudar, afinal, tinha que ser alguém na vida, superar as expectativas dos pais e se formar... e se formou, com louvor. Foi o melhor aluno da classe.


Os amigos foram comemorar a formatura em uma viagem, ele não foi. Queria ir, é verdade, mas aquele não era o momento, precisava estudar para fazer o vestibular. Estudou dia e noite. Resultado: primeiro lugar para o curso de medicina. Os pais estavam orgulhosos. Ele estava orgulhoso. Festa completa.


Na faculdade estudava muito, afinal, não queria apenas ser um médico, queria ser o melhor na profissão. Reencontrou a Ritinha, aquela lá da escola, do seu tempo de infância. Engatou um namoro. Estava indo tudo bem. Ele estava mais apaixonado do que nunca. Ele a amava com toda a sua força. Queria muito se casar. Ritinha era tudo o que ele tinha sonhado na vida. Parceira, fiel em todos os sentidos, guerreira e o entendia. Ritinha seria sua mulher, não tinha dúvida, ela era a mulher de sua vida. Ele a amava.


Eis que um dia morreu a avó de Ritinha. Teriam que viajar para o interior para ir ao enterro. Seriam cinco dias fora. Não podia deixar a faculdade por cinco dias. Ela entendeu e se foi. Ele ficou. Eis que no interior Ritinha conheceu alguém e nunca mais voltou. Ele chorou. Queria ir atrás dela, mas não podia, tinha a faculdade.


Então se formou e começou a trabalhar. Logo conheceu a Márcia e se casou rápido. Nunca amou Márcia como amava Ritinha, mas ela era uma boa pessoa. Não tinha muito tempo para ficar com ela. Precisava trabalhar. Houve um dia que ela o convidou para viajarem. Ir para algum lugar só os dois. Ele queria muito ir, mas estava construindo a sua casa e mais uma vez decidiu vender as férias.


No ano seguinte ela estava grávida e nasceu seu primeiro filho. Então conseguiu um segundo emprego. Precisava de dinheiro. Tinha que fazer uma poupança para garantir o futuro do filho. Tinha acabado de comprar um segundo carro. Estava prestes a comprar uma segunda casa.


Depois veio o segundo filho. Ele continuou trabalhando. Márcia cuidava da casa. Ele trabalhava em dobro na esperança de comprar uma casa na praia. Concretizou o sonho, mas foi poucas vezes lá, já que sempre que sobrava um tempo tinha pouca vontade de pegar a estrada.


Um dia recebeu um convite para ir a um encontro da sua velha turma de escola. Seria uma festa para relembrar aqueles tempos com amigos que não via há muitos anos. Começou a lembrar da turma e bateu uma saudade no peito. Queria ir. Desta vez não tinha nada que o impedisse.


Foi justamente naquele dia, em que estava se preparando para viajar, que houve uma reunião no hospital que decidiu quem seria o novo diretor. Márcia lhe disse que ele não precisava do cargo, que ele somente trabalharia mais, que ia ter ainda menos tempo para ficar com os filhos. Ela de fato tinha razão, mas não conseguia compreender. Ele precisava daquele cargo. Ele tinha que ter aquele cargo, afinal, aquilo era tudo que ele sempre sonhara. Não foi na viagem que queria, mas, em compensação, garantiu o cargo de diretor no hospital.


Então o primeiro filho terminou o ensino médio. Infelizmente no dia da formatura ele não pode ir. Tinha acontecido alguma coisa no hospital que ele precisou resolver. O filho ficou dias sem falar com ele.


Então o menino passou no vestibular e ele-o presenteou com um carro. Não pode levar o guri para escolher o veículo, porque, mais uma vez o trabalho lhe obrigou a ficar atarefado. O menino saiu de casa e foi para faculdade. Ele foi uma vez olhar o apartamento que alugara para o filho. Foi a única visita em quatro anos de faculdade. Depois o seu menino, que se tornara engenheiro, tomou o seu próprio rumo na vida.


Seu segundo filho nem foi para faculdade. Tornou-se esqueitista profissional. Foi uma decepção, até ele ver um menino chegar no hospital esfolado depois de um tombo e dizendo que quando crescesse queria ser igual ao seu filho.


Teve um orgulho grande e  sentiu que precisava ir vê-lo em ação. Programou-se várias vezes, mas nunca conseguiu. Quando não era uma coisa era outra. Via de vez encontrava alguma notícia sobre o menino na internet e pensava “Este é meu filho!”. Mas o seu garoto se aposentou sem que ele conseguisse ir vê-lo.


Hoje o garoto que fora uma vez chamado de levado e que gostava de jogar bola na rua, está velho, numa cama de hospital e morrendo. Ainda consegue ver a Márcia, que com um novo namorado, lhe visita de vez  em quando. Os filhos aparecem às vezes, mas todas as visitas são extremamente rápidas. Queria que eles ficassem mais, mas eles não podem, afinal, eles têm que trabalhar. Enquanto isso ele só pensa em todas as coisas que fez ou deixou de fazer e se pergunta: Valeu à pena?


 


 

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Blog/coluna Apresentador da Rádio Província FM, sub-editor do Jornal Província e escritor, neste espaço você poderá acompanhar crônicas e opiniões de Jonas Martins
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